As dicas do Pedro Agricultor para Abril

Abril, mês do engano, das chuvas mil e da liberdade.

Por Pedro Rocha (pedroagricultorurbano@gmail.com)*

Não vou começar esta dica com o provérbio mais conhecido de todos. Mais interessante é olhar para aquele que diz “Quem em Abril não varre a eira e em Maio não rega a leira, anda todo o ano em canseira.” Assim é a agricultura, tudo tem o seu tempo e se assim não for a vida de agricultor fica mais difícil. Neste mês de abril já muitas sementeiras foram feitas e já muitas plantações estão instaladas no campo. Faz sentido por isso o ditado que nos diz, “Abril frio e molhado, enche o celeiro e farta o gado”, como indicador da importância do mês para um bom ano agrícola. Termino com outro ainda: “No princípio ou no fim, costuma Abril a ser ruim”. Veremos se assim será!

MÃOS À HORTA

Muitas das plantas que semeámos estão agora prontas para serem instaladas em local definitivo. Quando o fizeres tem em conta que cada espécie gosta de ter um espaçamento diferente entre plantas. Pensa sempre no formato que a planta terá no estado adulto e imagina, num raio circular, todo o espaço de que necessita para crescer. Depois de o imaginares, dá ainda mais algum espaço para que haja um bom arejamento entre plantas, dessa forma irás evitar problemas maiores com pragas e doenças.

As abóboras, por exemplo, devem ser plantadas com cerca de 50 cm a 1 metro entre plantas e com cerca de 1,5 metros a 3 metros entrelinhas. O mesmo acontece para melancias e melões. Já os tomateiros devem estar em linha com um espaçamento de 30 a 50 cm entre planta e bem estacados, para poderem ser conduzidos na vertical.

Contando que em Abril as temperaturas já serão melhores, este é um bom mês para plantar a batata. Ao contrário do que muitas vezes se diz, a batata não se semeia. O termo correto é plantar. Ao plantar a batata é fácil lembrar como ela cresce e quando tem de ser colhida. Lembra-te do seguinte: “Dois meses para criar e dois para encascar”, assim dizia a avó e nunca mais esqueci.

Daqui até ao S. Pedro, abre rego e tapa rego. Aproveita para semear feijão-verde e aposta nas variedades mais tradicionais, mais adaptadas ao clima e mais saborosas. Não te esqueças que o feijão pode ser rasteiro ou de trepar. Caso seja de trepar terás de criar uma estrutura para que se possa apoiar e crescer na vertical. Sê criativo e constrói uma espécie de cabana de índio, com feijões semeados em volta.

Não será má ideia semeares uns girassóis para embelezar a horta, atrair polinizadores e obter deliciosas sementes que poderás comer mais tarde.

SEMENTEIRAS DA PRIMAVERA

Pela Primavera fora podes fazer quase todo o tipo de sementeiras. A temperatura é propicia à germinação e os períodos de chuva característicos nesta época do ano também ajudam a manter a terra húmida, essencial para uma boa germinação das sementes. Procura sementes de qualidade e de agricultura biológica.
Sabias que muitas sementes sofrem tratamentos químicos? Repara nas ervilhas, feijões e favas que se vendem em muitas casas agrícolas e como estão pintadas com um rosa duvidoso e pouco natural. Caso não existam sementes biológicas, pede sementes sem tratamento.

NO CAMPO

Chuva, temperatura a subir e dias a crescer faz com que não haja tempo a perder. Neste mês a enxada ou sachola são o utensílio mais comum na mão do agricultor. Toca a sachar e controlar bem as ervas daninhas. Se tiveres um campo grande talvez seja interessante pensares num sachador manual ou mesmo mecânico para facilitar o processo de controlo das ervas.

O “FAMOSO” DE ABRIL: A BATATA

 

Bilhete de Identidade
Familia: Solanaceae
Género: Solanum
Espécie: Solanum tuberosum L.

Origem e história
A batata é originária da região andina, mais especificamente do Peru-Bolívia, onde era cultivada pelas tribos nativas perto dos 4000 metros de altitude. Os Incas tinham a batata como um dos alimentos base desempenhado um papel central na sua alimentação. Já na Europa a batata surgiu na segunda metade do Séc. XVI. Trazida pelos espanhóis, foi inicialmente vista como planta venenosa e o seu cultivo chegou mesmo a ser proibido em França. A batata foi, contudo, entrando na alimentação da população mais pobre, tendo o seu consumo sido generalizado na Europa em períodos de fome, principalmente durante tempos de guerra. Em Portugal, a cultura terá tido uma maior expansão em meados do Séc. XIX, tendo substituído a Castanha ou a Bolota na nossa alimentação.

A Cultura da Batata
A plantação da Batata pode ser efetuada assim que a temperatura do solo seja superior a 7ºC, idealmente superior a 15ºC. Por esta razão, a época do ano típica em Portugal situa-se entre finais de Fevereiro e meados de Maio, dependendo da zona do país em que te encontras. Poderás assim fazer a colheita entre início de Junho e finais de Setembro, seguindo o ditado, “dois meses para criar e três para encascar”.
A plantação pode ser feita manualmente ou mecanicamente a uma profundidade de 8 a 15 cm em função do tipo de solo, clima e rega.
A distância entre plantas pode variar entre 20 a 35 cm na linha e as entrelinhas podem ter um intervalo de 60 a 90 cm.
A batata gosta de uma boa fertilização orgânica, através da utilização de matéria orgânica bem compostada ou estrumes bem curtidos. Idealmente, a matéria orgânica, deve ser incorporada no outono anterior à plantação numa razão de 15 a 30 toneladas por hectare, o que equivale a 1,5 a 3,0 kg por metro quadrado. A cultura da batata beneficia ainda com a utilização de uma leguminosa como precedente cultura (ervilha, fava, tremoço).
Embora possas cultivar a batata em regime de sequeiro, a sua produtividade beneficia com a rega, sendo no período de formação dos tubérculos que ocorre a maior exigência hídrica.
Embora a batata seja suscetível a mais de 100 doenças parasitárias, existem algumas que requerem particular atenção:

– O Escaravelho
Anteriormente uma praga que provocava grandes prejuízos, hoje já está mais controlada.
Quando as plantas da batata estiverem crescidas, faz-lhes inspeções periódicas. Se detetares escaravelho retira manualmente todos os indivíduos da planta e inspeciona as plantas vizinhas. Verás como é fácil controlar esta praga sem químicos. 

– O Míldio e o Oídio
Para prevenir este fungo, deves ter calda bordalesa à mão e fazer aplicações regulares. Estes fungos acorrem com maior frequência na presença de temperaturas quentes e humidade favoráveis. Três aplicações deverão ser suficientes, mas só a experiência te irá ensinar a prevenir da forma mais eficiente esta doença.

OS LEITORES PERGUNTARAM

As questões selecionadas durante o mês de Março, foram as seguintes:

A tradicional “Calda Bordalesa” está dentro dos procedimentos aceites na chamada agricultura biológica?
Anselmo Canha, Porto

A Calda Bordalesa é um dos fitofármacos autorizados em Agricultura Biológica, sendo composto por uma mistura de sulfato de cobre e cálcio, atuando essencialmente como fungicida. A sua aplicação é vasta, tanto para o número de plantas, como para o número de doenças fúngicas que previne.
Previne o míldio, para batateira, tomateiros, videiras e citrinos. Previne, ainda, o pedrado das macieiras e pereiras, assim como a lepra dos pessegueiros, entre outras doenças.
Apesar de ser utilizada em Agricultura Biológica, a sua aplicação deve ser reduzida apenas ao estritamente necessário.

A poda das aromáticas ainda vai a tempo?
Tulipa Lu, Porto

A poda de plantas aromáticas deve ser feita durante o período de Outono e Inverno. A poda das plantas ajudará a eliminar ramos velhos e permitirá à planta produzir folha com vigor no ano seguinte. Chegado o período de Primavera, as plantas irão produzir folhas, podendo estas ser sucessivamente cortadas até final do Verão ou início do Outono.

Tens dúvidas?
Podes escrever ao Pedro Agricultor para o endereço eletrónico que está no início deste artigo, indicando o nome e o local de onde escreves. Todos os meses, ele vai responder a duas ou três questões colocadas pelos leitores.
Se quiseres ouvir a versão radiofónica de “As Dicas do Pedro Agricultor para Abril”, ouve esta noite (6 de Abril) o programa “O Som é a Enxada”, da Rádio Manobras, às 22 horas, ou visita o blogue do programa, onde encontras todas as emissões passadas.

(*) Pedro Rocha nasceu em Espinho em 1976 e cresceu entre as praias da Aguda e os campos de Arcozelo. Em 2000 concluiu o Curso de Ciências do Ambiente e Poluição na Universidade de ‘South Wales’, no Reino Unido e, no mesmo ano, iniciou a atividade profissional na consultora alemã ‘Hydroplan GmbH’, sendo consultor no projeto de desenvolvimento rural em Cabo Verde. Em 2005 começou o projeto de agricultura biológica Raízes, do qual ainda é sócio. Desde 2014 que se dedica à prestação serviços como agricultor urbano e consultor, promovendo novos conceitos de relação entre consumidores e produtor. Podes saber mais sobre a colaboração de Pedro com o JORNALÍSSIMO aqui.

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