As dicas do Pedro Agricultor para Junho

Chovam trinta Maios e não chova em Junho.

Por Pedro Rocha (pedroagricultorurbano@gmail.com)*

Chegados a Junho, mês do Solstício de Verão, a maioria das culturas deveriam já estar todas bem desenvolvidas, mas essa não é a realidade deste ano.

A chuva e o frio têm perdurado e as culturas mais exigentes em horas de sol e temperatura não apresentam um crescimento normal para a época. Por isso, não julgues que é um problema de ter, ou não, dedo verde! Este ano é assim… e é assim quando se trabalha com a natureza.

A imprevisibilidade faz parte da vida, nomeadamente da vida do agricultor, e por isso é importante que não coloques os ovos todos no mesmo cesto. Varia a produção, em vez de apostares num só tipo de cultura.

Quem plantou apenas tomate, deve estar por esta altura preocupado. Já quem plantou tomate, cebola, alface e couve, terá minimizado os riscos de perda, dividindo-o por culturas diferentes. Na verdade, é um pouco como jogar na Bolsa. Havendo uma grande dose de risco, o melhor é mesmo fazer várias apostas.

Até agora o ano agrícola está a ser difícil, com muitas culturas atrasadas, tanto por impossibilidade de as instalar na altura mais indicada, como por um pobre desenvolvimento das plantas. Como causa, temos o período longo de chuva e as temperaturas baixas que se têm sentido. Daí, nada melhor do que lembrar o provérbio “chovam trinta Maios e não chova em Junho”.

De facto, já chega! Resta esperar que daqui para a frente venha Sol e mais calor, para que as culturas de Primavera/Verão possam dar boa colheita. Infelizmente, para as colheitas dos primeiros frutos, a época já não irá ser boa, como é o caso da cereja.

MÃOS À HORTA

“Sol de Junho madruga muito” – Aproveita, por isso, bem o tempo, porque em breve os dias começarão novamente a ser mais curtos.

É agora que se inicia a época de preparação dos terrenos para as culturas de Outono/Inverno. Se fizeres tu próprio as tuas sementeiras, aproveita o mês para semear Couve Penca ou Portuguesa e outras Couves como Lombarda, Coração, Brócolo e Couve-flor. Continua a semear rabanetes e aproveita, ainda, para semear o último feijão-verde do ano.

Ao mesmo tempo que vais cuidando das sementeiras, procura preparar a terra que irá receber todas essas culturas durante os meses de Agosto e Setembro. Elas serão a garantia de alimento para a maior parte do Outono e Inverno.

Podes ainda continuar a plantar alface, pepino e pimento, assim como diferentes tipos de couve.

CONSOCIAÇÕES

Sabes o que são consociações, já ouviste falar em tal coisa?

Esta é a técnica de combinar, pelo menos, dois tipos de plantas, fazendo com que umas tirem benefício da presença de outras. Ao plantar diferentes plantas em vizinhança podemos melhorar o crescimento ou proteção das nossas culturas. É aqui que a Agricultura Biológica se torna fascinante e se transforma numa autêntica arte, levando-nos a mergulhar profundamente no conhecimento sobre o papel que cada planta pode ter no campo.

Estas consociações podem ser feitas por diversos motivos:

– Auxiliarem o crescimento da planta vizinha;
– Inibirem o crescimento de alguma planta em específico;
– Servirem de isco de pragas;
– Atraírem polinizadores:
– Servirem de refúgio ou local de postura para insetos auxiliares;
– Repelirem pragas.

NO CAMPO

No campo, deverás acompanhar o crescimento das plantas instaladas. Os tomateiros vão precisando de ser conduzidos, assim como os pepinos, melancias e outros. Há que estar atento às pragas, por isso faz inspeções regulares às plantas. Se notares que as folhas mais antigas estão a ficar amarelas, poderás ter de fertilizar com algum adubo orgânico para suprimir alguma carência nutritiva. Lembra-te que existem soluções de fertilização naturais, não são precisos químicos.

Por esta altura, também já terás bastante trabalho de colheita.

Lembra-te de manter boas práticas no campo, evitando a propagação de doenças ou surgimento de fungos desnecessários. Numa das próximas sessões falarei disso, mas só para deixar um exemplo, se houver plantas contaminadas com uma praga, deves eliminá-las em vez de as deixar no terreno.

O “FAMOSO” DE JUNHO: O PIMENTO

Bilhete de Identidade
Família: Solanaceae
Género: Capsicum
Espécie: Capsicum annuum

Origem e história
O pimento é mais um alimento com origem no continente americano, mais concretamente nas regiões tropicais e temperadas, sendo cultivado há mais de 7000 anos.
Na Europa, a espécie terá sido introduzida por Colombo em Espanha, nos finais do Séc. XV, tendo daí se dispersado por toda a Europa.

Curiosamente, foi a partir do Pimento que, em 1928, se isolou e cristalizou a vitamina C, feito alcançado por Albert Szent-Györgyi, valendo-lhe o prémio Nobel em Fisiologia ou Medicina.

A Cultura do Pimento
A plantação de Pimentos faz-se entre início de Abril e finais de Maio, mas este ano a sua produção estará atrasada, comprometendo a sua disponibilidade à mesa durante as festas de S. João. A instalação da cultura pode fazer-se respeitando espaçamentos de cerca de 40 centímetros entre plantas, podendo ser benéfica a utilização de cobertura de solo e a consociação com cebola, cenoura ou salsa.

O pimento é sensível ao excesso ou défice de água, por isso há que ter atenção à rega. Caso pretendas favorecer a formação de plantas mais vigorosas, aconselho a remover a primeira flor.

O Pimento, não foge à regra de todas as hortícolas e também tem as suas doenças e pragas. Deves ter particular atenção a doenças radiculares e necrose apical do fruto, provocadas por excesso de água.

OS LEITORES PERGUNTARAM

A questão selecionada durante o mês de Junho, foi a seguinte:

É possível ter sucesso com culturas de Verão sem água?
Alcina Dourada, Lisboa

Olá Alcina,

Em boa verdade nenhuma cultura é possível sem água. A água é constituinte fundamental de todas as plantas e organismos vivos. Existem, sim, culturas que são mais ou menos exigentes em água. Por exemplo, antigamente a batata era cultivada muitas vezes em regime de sequeiro (sem rega), mas isso refletia-se enormemente na produtividade.

O que podemos fazer é adotar técnicas que nos ajudem a poupar água ou a reter a água no solo durante mais tempo. Isto é, reduzir a perda por evaporação.

Para isso, podemos cobrir o solo com palha ou folhas, devendo ser aplicada uma boa camada. Dessa forma estamos a reduzir o número de vezes que precisamos de regar e a água que é necessária.

Para além disso existem hoje soluções inovadoras, como a solução da Growbed da NooCity, que criou uma cama de cultivo com um sistema de sub-irrigação incorporado, reduzindo em 80% o consumo de água e permitindo estar até três semanas sem regar.

Tens dúvidas?
Podes escrever ao Pedro Agricultor para o endereço eletrónico que está no início deste artigo, indicando o nome e o local de onde escreves. Todos os meses, ele vai responder a duas ou três questões colocadas pelos leitores.

Se quiseres ouvir a versão radiofónica de “As Dicas do Pedro Agricultor para Abril”, ouve esta noite (1 de junho) o programa “O Som é a Enxada”, da Rádio Manobras, às 22 horas, ou visita o blogue do programa, onde encontras todas as emissões passadas.

(*) Pedro Rocha nasceu em Espinho em 1976 e cresceu entre as praias da Aguda e os campos de Arcozelo. Em 2000 concluiu o Curso de Ciências do Ambiente e Poluição na Universidade de ‘South Wales’, no Reino Unido e, no mesmo ano, iniciou a atividade pro-fissional na consultora alemã ‘Hydroplan GmbH’, sendo consultor no projeto de desen-volvimento rural em Cabo Verde. Em 2005 começou o projeto de agricultura biológica Ra-ízes, do qual ainda é sócio. Desde 2014 que se dedica à prestação serviços como agricul-tor urbano e consultor, promovendo novos conceitos de relação entre consumidores e produtor. Podes saber mais sobre a colaboração de Pedro com o JORNALÍSSIMO aqui.

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