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Devemos ou não preocupar-nos com o vírus do Nilo?

Maria João Alves, investigadora do departamento de doenças infeciosas do Instituto Ricardo Jorge, responde a todas as tuas dúvidas.

Portugal registou esta semana o primeiro caso de infeção por febre do Nilo Ocidental deste ano.
A vítima do maldito mosquito, sobre o qual podes ficar a saber mais em seguida, foi picada no Algarve e já teve alta.
Segundo o ‘European Centre for Disease Prevention and Control’, até ao passado dia 28 de agosto, houve este ano 13 pessoas infetadas na Europa comunitária (14, contabilizando o caso de Portugal) e 17 na Europa não-comunitária.
Este vírus não é novo. Já foi descoberto em 1937 em África, no Uganda, mais precisamente no distrito de ‘West Nile’ (daí o nome com que foi batizado). Foi isolado (extraído e cultivado em células num laboratório) logo nesse ano.
Entrevistámos alguém que trata os mosquitos por tu (como podes ver pela fotografia abaixo), para te contarmos tudo o que importa saber sobre esta febre com nome de rio, mas que não corre rapidamente: a maior parte das pessoas picadas não contrai o vírus e ele não se transmite de pessoa para pessoa. Vamos às perguntas.

JORNALÍSSIMO – Que mosquito é este?
MARIA JOÃO ALVES – São mosquitos do género ‘Culex’, uma das espécies mais comuns em Portugal e na Europa. O reservatório do vírus são as aves, migratórias ou não. Ocasionalmente, os mosquitos podem-se infetar nas aves e transmitir o vírus. Tanto o homem como os equinos  [cavalos, éguas], podem apresentar sintomatologia, mas não são importantes para a manutenção do vírus na natureza (são hospedeiros acidentais…).

J – Que sintomas apresenta uma pessoa que seja picada?
MJA – Oitenta por cento das pessoas fica assintomática. O vírus é transmitido pela picada, replica-se no indivíduo durante no máximo 5 dias, mas este não tem qualquer tipo de sintomatologia. Estes casos, assintomáticos, só levantam problemas quando o indivíduo é dador de sangue ou tecidos, já que podem estar infetados.
Dezanove ou vinte por cento das pessoas desenvolve a chamada febre do Nilo Ocidental e apresenta sintomas parecidos com os da gripe, como dores de cabeça ou dores musculares.
Apenas um por cento dos casos desenvolve sintomas neurológicos [infeções no cérebro], como encefalites, meningoencefalites, paralisia flácida.

J – Corre-se risco de vida?
MJA – Esse um por cento corre.

J – O que deve fazer uma pessoa se for picada?
MJA – Depois da picada, deve fazer-se o costume neste tipo de situações: lavar e aplicar um anti-histamínico, usados para o alívio das alergias da pele e em vários tipos de pruridos (comichões). E estar alerta para, se surgirem sintomas, avisar o médico que foi picado.

J- E pode-se prevenir?
MJA – O que se tem que fazer é prevenir a picada dos mosquitos! Evitar exposição nas horas de atividade dos mosquitos (crepúsculo), proteger-se com roupa adequada (mangas compridas, calças em vez de calções, redes mosquiteiras, repelentes – que devem ser renovados porque perdem atividade sobretudo com tempo quente e suor).
Também é importante que os países tenham bons sistemas de vigilância de mosquitos. E Portugal tem a rede REVIVE (Rede Nacional de Vigilância de Vetores), desde 2006, a funcionar no Algarve e, desde 2008, a nível nacional.

J – Há pessoas mais vulneráveis do que outras?
MJA – Como em todas as patologias, a condição física de cada um interfere com o progresso da doença. Os idosos são mais vulneráveis, assim como pessoas com o sistema imunitário debilitado.

J – Quais os locais do país e alturas do dia em que o risco é maior?
MJA – Os casos já identificados em Portugal foram sempre a sul. O período de ativado dos mosquitos vai de maio a outubro.
Na Europa, e em Portugal, as doenças transmitidas por mosquitos não são tão importantes como nos países tropicais, no entanto registam-se anualmente alguns casos de infeções por vírus do Nilo Ocidental (vírus West Nile) distribuídos por toda a Europa.

J – Em que países este mosquito tem “atacado” mais?
MJA – Depende de ano para ano. Em 2010, houve um surto na Grécia (o maior) com 230 casos, Itália, Hungria… Nos Estados Unidos foi introduzido em 1999 e, a partir de aí, há cerca de 2000 casos por ano. Também há casos na América central e no Canadá.

J- Em Portugal quantos casos se registaram até ao momento?
MJA – Nos anos 60, foi identificada atividade viral (em humanos e equinos) na região da barragem do Roxo (Aljustrel, Alentejo) e o vírus foi isolado de mosquitos, mas não foram identificados casos clínicos.
Em 2004, foram identificados dois casos clínicos em turistas no Algarve. Em 2010, novo caso clínico na região de Setúbal e agora este caso no Algarve, cujas análises laboratoriais já foram suficientes para considerar o caso clínico, aguardando apenas teste laboratorial complementar para que seja possível, na “definição de caso” adotada na Europa comunitária, decidir se fica registado como “caso provável” ou “caso confirmado”.

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