Ver nascer a obra de arte

Três escultores estão a trabalhar em Matosinhos à vista de quem passa. Entraram na reta final.

O escultor está debruçado sobre uma nuvem e tem outra nuvem, de pó cinzento, a rodeá-lo. A pele de Victor Ribeiro está tingida com a cor da pedra que trabalha. Aquela poeira fininha uniformiza-lhe a cara, realça-lhe os traços e parece, ele próprio, uma estátua.

Raramente o artista trabalha assim, no espaço público, com quem passa a observá-lo – “Trabalho de escultor é solitário”, dirá dali a pouco.

Mas a ideia deste ‘Simpósio de Escultura em Mármore’ era mesmo esta, a de “as pessoas verem nascer uma obra, até porque criam uma relação com ela muito mais íntima”, explica agradado.

 

Victor Ribeiro tem pena que poucas pessoas se tenham aproximado dele e dos outros dois escultores – o também português Paulo Neves e o galego Álvaro de la Vega – que, com ele, partilharam o estaleiro, improvisado, ao longo das duas últimas semanas, num parque de estacionamento nas traseiras da Câmara Municipal de Matosinhos.

Avança uma explicação: “Isto faz muito barulho, muito pó, afasta as pessoas”. Talvez a fase que se aproxima, entre segunda e quarta, de 13 a 15 de junho, chame mais gente. As esculturas serão colocadas no lugar que lhes foi atribuído – duas ali mesmo, nos jardins envolventes da Biblioteca e da Câmara Municipal, outra em Leça da Palmeira, junto ao acesso à ponte móvel.

“É uma parte que também vale a pena ver, envolve gruas”, diz Victor Ribeiro, em jeito de convite. Só nessa altura a sua escultura se verá na totalidade – a nuvem tem, a sustentá-la, um bloco retangular com alto-relevo – a chuva. Não deixa de ser curioso representar algo de tão leve em dois blocos de 30 toneladas cada!

Victor Ribeiro é conhecido pelas esculturas de árvores em pedra que faz. Conta que em Matosinhos ficaram tristes quando souberam que, desta vez, tinha escolhido outra peça. Ficando a obra dele no jardim ali ao lado, justifica a decisão: “Já tinha muita concorrência e é difícil concorrer com árvores de verdade”.

A obra chama-se “As nuvens não conhecem fronteiras”, uma alusão ao evento que esteve na base deste Simpósio – a Capital da Cultura do Eixo Atlântico 2016.

As obras dos outros dois escultores estão, também, praticamente acabadas. Visitámos o estaleiro no último sábado, 11. Os outros dois escultores não estavam, mas Victor Ribeiro serviu-nos de guia ao trabalho dos colegas.

A obra de Álvaro de La Vega é uma figura humana composta por dois blocos de pedra, de cor diferente, e transmite a mensagem de que “sendo dois povos (galego e português), somos um só”.

Já Paulo Neves fez uma figura com duas cabeças, uma com olhos abertos, outra com olhos fechados. Jogou, ainda, com círculos e quadrados e com a alternância de texturas com zonas lisas.

A peça de Paulo Neves ficará em Leça da Palmeira, a de Álvaro de La Vega e de Victor Ribeiro serão instaladas até esta quarta, dia 15, no jardim envolvente à Biblioteca Municipal.

A iniciativa que está quase a chegar ao fim vai dar mais três obras a Matosinhos, juntando mais três nomes a um conjunto que tem a assinatura de artistas como Irene Vilar, Gustavo Bastos, Lagoa Henriques, Armando Alves ou Zulmiro de Carvalho.

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