Ponte de Lima: arte (e crítica) em forma de jardim

O Festival de Jardins só se pode visitar entre maio e outubro, mas o trabalho de preparação dura todo o ano. Ora lê… e vê.

Quando passeamos por entre os 11 jardins do Festival de Ponte de Lima que, nesta 12ª edição, tem por tema o conhecimento, dificilmente pensamos nos “bastidores” do evento, entusiasmados que estamos a observar a beleza e criatividade dos espaços verdes e das inúmeras estruturas (e esculturas) de diferentes materiais – madeira, aço, canas, ferro enferrujado, plástico…

O que vemos é fruto de muitos meses de trabalho: “Reaproveitamos todos os materiais, só vai para o lixo o que está estragado, o resto é tudo reutilizado”, garante Eva Barbosa, a engenheira responsável pelo Festival na Câmara de Ponte de Lima.

A jovem Ana Leitão confirma. É uma das funcionárias do Município e passa o ano ali: “A partir de novembro começa o desmantelamento dos jardins e depois, de janeiro a maio, a construção e manutenção”. 

Construir os 11 jardins, selecionados pelo júri (formado por arquitetos paisagistas e artistas plásticos) de entre 34 propostas apresentadas de 11 países diferentes, resultou particularmente difícil este ano. A chuva foi uma dificuldade extra a somar-se às que se repetem a cada ano.

Dar vida aos desenhos escolhidos não é fácil e, por vezes, é mesmo necessário fazer alterações à versão inicial. A visita pode transformar-se num “descobre as diferenças”, comparando o desenho original com o jardim construído. 

E depois há autores que se entregam a “altos voos”, como os estudantes Mónica Gandra, Paulo Carvalho e Tiago Ferreira, que fizeram “aterrar” um avião no festival, para montar o “Jardim do Conhecimento Exportado”.

Não é só a beleza que está em causa. Cada um dos projetos tem uma história por trás. No caso do avião, pretende passar uma mensagem. Ou, mais do que isso, uma crítica: “sobre os movimentos migratórios dos jovens dos nossos dias”, forçados a abandonar o seu país em busca de trabalho, explicam os autores. Cada mala representa um jovem emigrante e o conhecimento e experiência que adquiriu a ser levado para fora do país.

E porque o tema é conhecimento, é importante referir que se aprende muito nesta visita ao Festival.

“Os Números do Jardim” fala de matemática e da sequência de ‘Fibonacci’ (sucessão de números que aparece misteriosamente em vários fenómenos naturais); A “Biblioteca do Conhecimento” apresenta o ADN como uma “biblioteca portátil de informação” e, lá perto, fica “A Célula Biótopo do Conhecimento”, com representações de uma célula eucariota.

O Jardim “96 por cento” fala-nos de uma crença dos cientistas – a de que “tudo o que sabemos sobre nós próprios, o nosso planeta e o universo não passa de 4% do que deve existir”.

Todo este conhecimento do terreno é pautado por sons – sons de pássaros, de água a cair, de passos dados em gravilha – e por espaços que convidam à meditação – abrigos, espreguiçadeiras, bancos, sombras.

De um dos lados, chegam vozes de crianças. Comentam, entusiasmadas, o Festival de Jardins Escolinhas, um festival dentro do evento principal com outros 11 projetos desenhados por turmas de várias Escolas Básicas do concelho. Destacam-se pela explosão de cores com que representam o tema “Conhecimento”.

E há, ainda, o jardim mais votado pelos 105 000 visitantes que, no ano passado, visitaram o Festival: “A Casa da Água”.

Aqui falámos-te apenas de alguns dos jardins que podes ver até ao próximo dia 31 de outubro. Há mais, igualmente dignos de referência, mas não podemos escrever sobre todos e deixamos alguns para descobrires por ti. Mesmo que já tenhas visitado a edição deste ano, considera voltar. Como lembra a engenheira Eva Barbosa: “Vale a pena ver mais do que uma vez porque os jardins se vão transformando ao longo dos meses”.

TENS IDEIAS PARA UM JARDIM?

Se quiseres submeter uma proposta de jardim para o Festival do próximo ano tens até 15 de novembro de 2016 para o fazer. Podes participar individualmente ou em equipa e não precisas de ter nenhuma formação em particular. Há estudantes de secundário a participar (um dos projetos escolhidos este ano é de alunos do Liceu Francês do Porto).

O tema da edição do próximo ano já é conhecido: “Jardim das Descobertas” e o júri do Festival já disse o que procura: “projetos desafiantes e provocadores de interação com os visitantes. Se precisares de inspiração lê esta reportagem que fizemos no Museu ‘World of Discoveries’, no Porto.

HORÁRIO: Até 31 de Outubro. Agosto – Diariamente 10h-20h (excepto 2ª: 13h30-20h); Setembro – Dias úteis 10h-12h, 13h30-19h; 2ª 13h30-19h; FDS e feriados 10h-19h; Outubro – Diariamente 10h20 (excepto 2ª: 13h30-18h). €1

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