Profissão: pintora (de praia, de vez em quando)

Neila não imagina outra vida senão esta, a de reproduzir mundos que existem e a de criar outros que lhe vão na alma.

Nos seus quadros mora gente disforme. Mais gordos do que magros (“os gordos passam mais tempo parados”, são mais fáceis de retratar), mais feios do que bonitos. E, no entanto, a obra de Neila Pascual é bela, desperta a atenção dos banhistas, portugueses e estrangeiros, que passam – e voltam a passar – em frente à sua banca, namorando os seus quadros.

Parecem atraídos por aquelas pessoas que Neila pinta disfarçadamente, enquanto estão esticadas na areia, descontraídas à beira mar, a mostrar um pneu ou uma banha que não escapam ao olhar atento (e impiedoso) de Neila.

“Supostamente a harmonia e a simetria é a beleza. Eu acho que tem mais piada e mais informação a deformidade”, diz a artista espanhola, nascida em Valladolid e residente em Granada.

Na sua maneira engraçada de falar português, misturado com palavras em castelhano, dá um exemplo: “Uma mulher de mamas coladas à barriga e pernas fininhas, graficamente é brutal. Muito mais do que uma rapariga bonita”.

Na praia dos Olhos de Água, no Algarve, onde está de julho a setembro, com a sua banca de quadros virada para o Atlântico, Neila pinta sobretudo o que vê: as pessoas, o areal e o mar, os barcos, o casario, a paisagem. Quase sempre ao fim da tarde, aproveitando aqueles tons que só o pôr-do-sol algarvio tem.

Pinta não exatamente como uma fotografia – filtra a realidade com o olhar e consegue transpor para a tela o ambiente, a atmosfera única do sítio que respira.

Se lhe perguntares qual é o segredo, ela responderá algo assim: “Quando pintas, tudo anda e tu estás parada a saborear o lugar. Consegues ver as coisas de outra maneira, sentir o sítio, as cores, as formas da gente”. (A entrevista vai sendo interrompida, de quando em quando, por alguém que se aproxima da banca para ver de perto o seu trabalho.)

Neila é expansiva, gosta desta interação com quem passa. Alguns veraneantes tornaram-se amigos, depois de alguns anos a cruzar-se com eles nesta praia: eles de férias, ela no pico do seu trabalho.

Mas este tipo de pintura é sobretudo forma de ganhar a vida, não o esconde: “fazer pintura de rua é o mais fácil para ganhar dinheiro”. Também a faz, no resto do ano, na cidade onde vive, no sul de Espanha. “As pessoas gostam de levar uma recordação do sítio onde estiveram e têm mais dificuldade em compreender um tipo de pintura que não seja realista”, observa.

O que gosta mais é, porém, de inventar: “o interessante do desenho é passares coisas que estão no teu imaginário, no teu subconsciente para a realidade”. Faz uma pausa e continua: “sonhos, emoções, coisas que não estão neste plano”. “É magia”, atalha.

Quando disse em casa que queria ser pintora, os pais não acharam graça – “são daquela geração em que o importante é ter um ordenado ao final do mês e quanto maior, melhor. Provavelmente porque passaram mais dificuldades”. Apesar da oposição familiar, Neila seguiu a vocação de sempre. E aliou o estudo em Belas Artes a outra paixão, as viagens.

Estudou em Salamanca, Lisboa (onde se fartou de pintar cenas de fado), Sevilha e Granada, quase sempre com o apoio de bolsas. De cada universidade por que passou retirou o melhor. E em Lisboa, o melhor foi o ateliê de gravura.

Hoje, com 30 anos, voltaria a seguir pintura. Trabalha muito e em muitas épocas em que os outros descansam (Verão e fins-de-semana), mas, como gosta, “não faz mal”, diz. Olha para as vantagens: a “liberdade de horário”, o “não depender de ninguém”.

Se pudesse, dispensaria a parte de ter de andar a mostrar o trabalho (o tal em que cria mundos) em galerias e de levar pinturas para vender em lojas (no Inverno, em Granada), mas essa é uma parte essencial para quem, como ela, faz da arte profissão.

A quem sonha vir a ser pintor, Neila deixa dois conselhos. O primeiro: “praticar, muito, é isso que se faz também na Universidade”. O segundo: “há que sempre fazer o que queremos, não o que os demais querem”.

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