Três perguntas para entender as eleições espanholas

Recuamos a 2011 para te explicar o fim do bipartidarismo em Espanha e o fenómeno Podemos, um partido com sangue jovem.

Quem ganhou as eleições espanholas?

O partido vencedor das eleições gerais em Espanha foi o Partido Popular (PP), liderado por um galego de 60 anos, Mariano Rajoy. No entanto, tal como aconteceu recentemente em Portugal, não é certo que o partido que obteve o melhor resultado vá governar o país nos próximos anos.
O PP conseguiu o maior número de votos, mas não chegou à maioria absoluta e as alianças que os partidos formarem nos próximos dias podem determinar, até, que o futuro Primeiro-Ministro de Espanha pertença a outra força política.

Por que se diz que acabou o bipartidarismo em Espanha?

Desde que se realizam eleições livres em Espanha – depois da queda do regime do ditador Francisco Franco (1939-1975) – que, juntos, os dois principais partidos recolheram sempre muito mais do que 50% dos votos.
Nestas eleições, o cenário mudou radicalmente. Juntos, PP e PSOE totalizam apenas 50,73% dos votos, com um novo partido a obter um número muito significativo de deputados no ‘Congreso’ (o Parlamento espanhol).
Para teres uma ideia:
– o PP conseguiu 28,7% dos votos (em 2011, tinha conseguido 44,6);
– o PSOE obteve 22% dos votos (em 2011, tinha obtido 28,8%)
– o Podemos, pela primeira vez candidato a eleições gerais, ficou em terceiro lugar com 20,6% dos votos (a menos de dois pontos percentuais, portanto, do histórico PSOE).
Houve ainda outro jovem partido a conseguir uma votação expressiva (13,9% dos votos): o Ciudadanos (C’s), um partido nascido em 2006 a partir de um movimento cívico catalão, mas que aos poucos se alargou a todo o país, que se opõe à independência da Catalunha. O seu líder é um advogado de 36 anos, natural de Barcelona, Albert Rivera.

Como é que o Podemos conseguiu a confiança de tantos eleitores logo nas primeiras eleições gerais a que se candidata?

Para se perceber o “fenómeno Podemos” é preciso recuar até 2011, ao chamado “Movimento 15-M” ou “Movimento dos Indignados”. ’15-M’ refere-se ao 15 de maio de 2011, dia em que houve em Espanha uma manifestação organizada por vários grupos de cidadãos descontentes com o estado da política e da economia espanholas.
Nesse dia, ao terminar o protesto, umas 40 pessoas decidiram acampar no centro de Madrid, na “Porta do Sol’. Esse foi apenas o primeiro de muitos acampamentos que jovens espanhóis fariam em várias cidades do país, mostrando o seu descontentamento com as políticas em vigor e apelando a uma sociedade mais participativa.
A Espanha vivia, então, uma gravíssima crise económica, com uma taxa de desemprego a rondar os 23 por cento. Os cidadãos que participaram na manifestação de 15 de maio (e nas muitas que se lhe seguiram) exigiam uma mudança política, criticavam os políticos e os partidos tradicionais, que viam como corruptos, mais preocupados em atender interesses de pequenos grupos privados do que da população em geral.
Muitos dos que participaram no 15-M juntaram-se para formar um partido que foi constituído apenas em janeiro de 2014. O Podemos reuniu então pessoas, de todas as idades, regiões e classes sociais, descontentes com o rumo que o país estava a tomar.
Milhares de cidadãos participaram ativamente na constituição do novo partido, ajudando a definir a sua organização e princípios, num processo realizado através da Internet. 
O rosto deste novo partido de esquerda é um professor universitário de Ciência Política: Pablo Iglesias, de 37 anos. Iglesias tem uma imagem bem diferente da que associamos aos políticos tradicionais – usa rabo-de-cavalo, não parece preocupar-se com barba mal feita e nunca se rendeu ao fato e gravata. Chamaram-no muitas vezes de utópico, mas, mesmo não tendo vencido as eleições, provou que conseguiu, pelo menos em parte, aquilo a que se propunha: uma mudança na política espanhola.       

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