A Ucrânia surpreendeu o mundo com a sua resistência.

Ucrânia, um balanço seis meses depois

Passou meio ano desde o início da guerra, a que não se vislumbra um fim.

A 24 de fevereiro deste ano, o mundo acordou em choque com uma guerra declarada na Europa. Há 77 anos, desde o final da II Guerra mundial, que tal não acontecia.

O que alguns já vinham imaginando sucedeu realmente: a Rússia invadiu o território ucraniano. Previu-se que seria uma guerra de curta duração, pela disparidade de forças em confronto: a gigante e poderosa russa contra a humilde e discreta Ucrânia.

Não foi assim. Apesar da desproporção entre os Exércitos dos dois países, os ucranianos mostraram uma resistência que surpreendeu o mundo.

Resistiram no início, em fevereiro. E continuam a fazê-lo agora, em agosto, meio ano depois. Perante a ameaça externa, as divergências internas do país esbateram-se e o povo ucraniano tornou-se um só.

A independência, a liberdade e a democracia na Ucrânia são à prova de bala, poderá hoje dizer-se.

A união faz a força

Os apoios foram determinantes. O Ocidente – da América ao velho Continente – uniu-se para dar força à luta da Ucrânia, que passou também a ser sua (do Ocidente).

A Europa saiu reforçada deste seis meses de conflito no seu território, falando praticamente a uma só voz.

Ao país do presidente Vlodimir Zelensky, os Estados Unidos e vários países europeus, entre os quais Portugal, fizeram chegar preciosa ajuda militar, humanitária, financeira e política. E a opinião pública europeia mantém-se firme ao lado dos ucranianos, mesmo quando o preço dos bens e produtos – e, em especial, os da eletricidade – continuam a ter impacto no nível de vida da população.

Apesar das pressões russas para não o fazerem, a Suécia e a Finlândia não hesitaram em ignorar as ameaças e aderir à NATO.

O preço da resistência

Resistir quase nunca é tarefa fácil. E não o é também para o povo ucraniano. Pelo menos 12 milhões viram-se forçados a abandonar as suas casas e 5 milhões tiveram que procurar refúgio noutro país.

Cerca de nove mil soldados perderam a vida, além de centenas de civis. Cidades ucranianas inteiras ficaram reduzidas a nada, sem condições de acolher de volta os seus moradores. Escolas, hospitais, igrejas, áreas residenciais de muitas outras localidades do país foram atingidas pelas bombas. Muitos cidadãos e cidadãs souberam o que significa ser vítima de crimes contra a humanidade.

A custo, mas o principal projeto da Rússia – que consistia em tomar de assalto a capital da Ucrânia, Kiev – foi mesmo abandonado por Vladimir Putin.

E vários locais da Ucrânia, que a Rússia assumia já como seus, como a estratégica península da Crimeia (invadiu-a e assumiu o seu controlo em 2014), foram mesmo alvo de contra-ofensivas ucranianas.

Impacto a nível mundial

Se alguém tinha dúvidas de que o mundo é hoje uma “aldeia global”, como profetizou o filósofo canadiano Marshall McLuhan, a guerra na Ucrânia veio, mais uma vez, dissipá-las.

O conflito afetou o abastecimento de alimentos em todo o mundo. Ao longo de cinco meses, a Rússia bloqueou os portos ucranianos, impedindo o transporte de toneladas de cereais, de que a Ucrânia é um dos principais países exportadores.

Um acordo assinado no final de julho entre a Rússia e a Ucrânia permitiu finalmente pôr fim ao bloqueio e levar os cereais ucranianos aos quatro cantos do mundo.

O receio de um desastre nuclear

Outra questão que tem provocado apreensão internacional prende-se com a central nuclear de Zaporizhzhia na Ucrânia, que é a maior da Europa e a terceira maior do mundo.

A Rússia assumiu o controlo desta infraestrutura em março e ela tem vindo a ser alvo de vários ataques, pelos quais tanto a Rússia como a Ucrânia se culpam mutuamente.

A situação tem gerado receios a nível internacional, temendo-se um desastre nuclear.

No entanto, o físico Pedro Ferreira afirmou ao jornal Público que um acidente naquela central seria perigoso, mas nunca teria a escala de Tchernobil, por a tecnologia de Zaporizhzhia ser mais moderna e segura.

Uma visita da AEIA para sossegar o mundo?

A Organização das Nações Unidas tem vindo a apelar ao fim da atividade militar naquela zona para evitar qualquer acidente. Mas não tem tido sucesso. Porém, a Rússia e a Ucrânia acederam finalmente a permitir que uma missão da Agência de Energia Atómica Internacional (AEIA) visite a central, algo que deverá acontecer nos primeiros dias de setembro.

A AEIA é responsável por garantir a segurança das instalações nucleares a nível mundial. O jornal espanhol El País exlica que a missão terá como objetivo avaliar os danos ocorridos na central nuclear por causa da guerra e verificar se o principal sistema de segurança e proteção funcionam. Outra das suas funções será averiguar em que condições os funcionários da central estão a trabalhar. Apesar de a central estar sob o domínio russo, os trabalhadores são ucranianos.

Quanto ao futuro desta guerra será preciso esperar para ver, mas a maioria dos especialistas antevê que o seu final não esteja para breve. O Inverno que se aproxima será uma prova de fogo para a resistência ucraniana. A crise energética deixa antever grandes dificuldades para a população.

Para complicar tudo, a Rússia já manifestou a sua intenção de desconectar a Central de Zaporizhzhia da rede ucraniana e ligá-la à rede russa, para abastecimento de energia aos territórios por si ocupados. Zaporizhzhia é responsável por uma fatia muito importante da energia necessária ao funcionamento da Ucrânia.

Foto: Public Domain Pictures

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