“Tenho prazer em fazer contas. Tanto ou mais do que em jogar computador”

Cálculo mental é com ele. João Bento é tricampeão mundial de SuperTmatik e já lhe chamam “o Contas”.

Portugal brilhou na edição deste ano da final mundial do SuperTmatik, um jogo de cartas que desafia os jogadores a resolverem de cabeça somas, subtrações, multiplicações e divisões – umas mais simples, outras mais complexas (aqui fica um exemplo: 7×6+64÷8. No final desta entrevista, encontras um vídeo explicativo das regras do jogo).

Quatro alunos portugueses alcançaram o 1º lugar nos seus escalões etários: João Bento (8ºano), da Escola Solano de Abreu, e Rita Mascate (4ºano), da Escola da Chainça, estudam ambos em Abrantes – ele no Agrupamento de Escolas nº1, ela no nº2; Matilde Santos Lourenço (1ºano) estuda em Castelo Branco no Centro Social Padres Redentoristas e Miguel Diogo Ruivo (5ºano) é aluno da Escola Básica António Bento Franco, na Ericeira.

João Bento venceu pelo terceiro ano consecutivo esta prova, realizada online, em que competem milhares de alunos de todo o mundo. Desta vez, resolveu as 15 equações apresentadas em 34,1 segundos (ou seja, demorou 2,27 segundos em média a resolver cada uma), com um avanço de 13 segundos relativamente ao segundo classificado, um aluno coreano.

Conversámos por telefone com João Bento, o “Contas”, como já lhe chamam. Percebemos que o cálculo mental o acompanha desde muito cedo e que faz do momento de ir às compras ao supermercado um verdadeiro jogo.

Como ele explica já de seguida, o SuperTmatik ajudou-o a subir as notas a matemática.

JORNALÍSSIMO – Isto de seres campeão mundial de cálculo mental já começa a tornar-se banal…
JOÃO BENTO – Sim, é verdade, começa um pouco (risos).

J – Pensas concorrer de novo para o ano?
JB – Acho que vai ser difícil conseguir este feito outra vez. É sempre difícil ficar em primeiro, ainda por cima a nível mundial. Mas vou continuar a treinar. Tenho pena que só se possa participar até ao 9º ano, assim só posso participar mais uma vez. Gostava que alargassem até ao 12º ano.

J – Como é que treinas?
JB – A competição costuma ser entre 18 de abril e 5 de maio. Geralmente começo a treinar mais a partir das férias da Páscoa. Quando faltam três semanas, a organização da prova envia um jogo online de preparação e aí começo a treinar entre 30 minutos a uma hora por dia. Depois, quando falta só uma semana, treino cerca de duas horas diárias.

J – Mas para alcançares estes resultados não precisas de treinar o ano inteiro?
JB – Bem, os meus avós fazem-me muitas perguntas, dizem-me, por exemplo, “Temos um amigo que nasceu na data tal, quantos anos tem?” e eu faço as contas. Também estou sempre a fazer contas quando vou com os meus pais ao supermercado: vou somando os preços e calculando os descontos das promoções e tento adivinhar quanto vão pagar ao chegar à caixa.

J – E acertas?!
JB – Em 91% das vezes, acerto!

J – Confessa, engoliste uma máquina de calcular quando eras mais novo?
JB – (risos) Não! Não sei… Se calhar até aconteceu!

J – És fascinado por números desde quando?
JB – Desde os cinco anos que já treino cálculo mental. Ia com a minha mãe levar os meus irmãos mais velhos à escola. Eles entravam às oito e meia, eu às nove, na meia hora em que a minha mãe esperava comigo, pedia-lhe para me dizer contas para eu resolver e para me perguntar a tabuada.
Os meus avós também sempre me treinaram, colocavam-me sempre questões que envolviam cálculos.

J – Quanto é 7×9?!
JB – 63! (diz de imediato)

J – Irias responder logo certo a qualquer multiplicação?
JB – Há contas quase impossíveis de responder de imediato. Se me perguntar 1056×4200 vou levar aí uns 15 ou 20 segundos a responder.

J – Qual foi o cálculo mais difícil na prova deste ano?
JB – Não me lembro, estava nervoso, não consegui fixar.

J – Ouvi dizer que não eras muito bom aluno a matemática…
JB – No 6º ano cheguei a ter 2 no segundo período. Agora já tenho 4. O jogo deu-me motivação para estudar e gostar mais da matemática.

J – Já sabes o curso que queres seguir?
JB – No 10º ano estou a pensar seguir economia. Quero ter uma profissão de que goste. Gosto de números… Talvez vá para gestão de empresas.

J – A facilidade que tens para o cálculo mental foi herdada?
JB – Tanto o meu avô paterno como materno são bastante rápidos a fazer cálculos mentais, mas se calhar não são tão rápidos como eu.

J – Treinaste com a Rita Mascate (outra das vencedoras e também de Abrantes)?
JB – Não a conheço, só de vista. Fiz uma palestra na escola dela em novembro sobre o SuperTmatik e o ser bicampeão mundial. Era o primeiro ano que aquela escola (Escola da Chaiça) ia participar e convidaram-me. 

J – És daquelas pessoas que sabe matrículas e números de telefone de cor?
JB – Sim! Sei a maior parte das matrículas dos carros e motos da família. Também sei números de telefone e os números de contribuinte dos meus pais. E datas de nascimento e de falecimento de famosos. E não preciso do Facebook para me lembrar das datas de aniversário dos amigos. Só uma vez ou outra, quando estou na dúvida se é hoje ou amanhã, mas é muito raro.

J – Na tua escola, já te puseram alguma alcunha?
JB – Chamam-me o “Contas” ou o “génio da matemática”, mas são só os alunos das outras turmas e os mais velhos.

J – E pedem-te ajuda para resolver contas?
JB – Sim! E os meus irmãos às vezes estão aqui em casa a fazer trabalhos para a universidade e pedem-me que lhes faça cálculos de cabeça.

J – O que te fascina no SuperTmatik?
JB – Tenho prazer em fazer contas. Gosto tanto ou mais do que jogar um jogo de computador. Se calhar gosto mesmo mais de fazer contas!

J – Achas que todas as escolas deveriam motivar os alunos a participar?
JB – Sim. É um jogo bastante divertido que se calhar ajuda alunos que tenham dificuldade a matemática, dá-lhes motivação para saberem mais.

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