Vive no mar, mas constrói os sonhos com os pés na terra

Entrevista com Sara Carmo, a única velejadora portuguesa nos Jogos Olímpicos do Rio’2016.

Começou a praticar vela com seis anos. Agora, com 29, a velejadora do Clube Naval de Cascais está na contagem decrescente para participar nos seus segundos Jogos Olímpicos.
Há cinco meses, Sara Carmo interrompeu o trabalho como arquiteta para se dedicar a cem por cento à vela. E… valeu a pena: conseguiu o passaporte para os Jogos do Rio de Janeiro, onde será a única representante feminina de vela da comitiva portuguesa.
Ao Jornalíssimo fala do percurso para chegar até aqui, de como se está a treinar, do pouco tempo que sobra além dos treinos, da importância do descanso e da alimentação.
O que espera da participação no Rio’2016? Continua a ler, ela responde já de seguida. Em discurso direto.  

JORNALÍSSIMO – O apuramento para os Jogos Olímpicos foi o culminar de um longo percurso… 
SARA CARMO – O apuramento para os Jogos foi o momento mais exigente. Falamos de uma competição onde a maioria dos atletas que participa é profissional, (ser apurada) é resultado do trabalho de vários anos.

J – Que idade tinhas quando começaste a praticar? Como é que te interessaste pela modalidade?
SC – Comecei com seis anos. Nessa idade a influência é maioritariamente da família. O meu irmão mais velho foi o pioneiro e eu limitava-me a acompanhá-lo. Na altura, o meu pai também começou a interessar-se pelo ambiente e a vela foi surgindo na família.

J – Começaste logo a participar em competições ou isso veio com o tempo?
SC – Foi um processo gradual. Comecei por aprender e conforme o meu nível ia aumentando, ia evoluindo na dificuldade da competição. Primeiro participei nos campeonatos da escola de vela, depois nos regionais, nacionais, internacionais, europeus, mundial e Jogos Olímpicos. Como uma bola de neve, quanto mais exigente era a competição mais tinha que treinar e assim fui construindo a minha carreira.

J – Já não és propriamente uma estreante, estiveste em Londres em 2012. Como vês a tua participação nos últimos Jogos e o que esperas conseguir desta vez no Rio?
SC – Sim, vão ser os meus segundos Jogos, muitas coisas já não serão novidade. Lembro-me o fascínio que foi em Londres ver atletas como o Djokovic ou o Michel Phelps, que eram ídolos de televisão para mim. Agora isso já não existirá, mas sinto-me com outra maturidade e isso será bom para atingir um resultado melhor.

J – O que seria para ti um bom resultado no Rio’ 2016?
SC – Um bom lugar seria melhorar o resultado de Londres 2012 (28º lugar na classe laser radial). O Rio é um campo de regatas bastante exigente taticamente, mas fisicamente menos do que Londres, o que me para mim é uma vantagem. Sinto-me também uma velejadora mais madura nas opções estratégicas da regata, o que pode ser muito bom.

J – Seres a única velejadora portuguesa é uma responsabilidade acrescida?
SC – Não considero que seja uma responsabilidade acrescida. Todos temos o nosso papel e com certeza que todos teremos os olhos dos Portugueses postos em nós. Sinto-me, às vezes, a menina da equipa, porque me tratam muito bem, mas gosto da influência que eles me dão porque tornam-me mais prática e aguerrida na hora de competir.

J – Podes explicar-nos o que é exatamente o “Laser Radial”, a classe em que competes?
SC – É um barco ‘one design’ com uma vela e para uma pessoa. O barco originário foi o ‘Laser Standart’, que é a modalidade olímpica masculina, onde o Gustavo Lima vai competir. O Laser Radial é igual, mas com uma vela mais pequena, de 5,7 metros, para as meninas. É a modalidade olímpica feminina.

J – Por que achas que não há mais portuguesas a apurarem-se?
SC – A vela é um desporto que exige bastante disponibilidade de tempo, vontade e dinheiro. Por vezes são características difíceis de conseguir, principalmente quando se chega aos 23, 24 anos, acaba-se o curso e a prioridade começa a ser ganhar independência financeira. A vela dá-te prazer mas dificilmente te dá estabilidade económica, ainda menos às mulheres, ao ser um mundo maioritariamente masculino.

J – Como é a vida de uma atleta de alta competição como tu? Quantas horas de treino por semana? Ou será melhor perguntar por dia?!
SC – O dia é dividido entre o treino de mar e o treino de ginásio. Consoante a época do ano, dou prioridade ao mar ou ao ginásio. O Laser Radial é muito exigente fisicamente, por isso o ginásio assume uma componente fundamental para a boa performance. Geralmente os treinos de mar são de três horas e os de ginásio são de uma hora, cinco vezes por semana.

J – E em termos de alimentação e descanso, estar a este nível implica cuidados?
SC – Para conseguir render em qualquer treino ou regata é fundamental ter as horas de descanso controladas e a alimentação equilibrada. É a alimentação que nos dá a energia. É importante que seja saudável e equilibrada, com bastantes hidratos de carbono quando sabemos que vamos apanhar vento forte e ter muita exigência física.

J – Quantas horas dormes por dia?
SC – As horas de descanso são fundamentais na recuperação do corpo e no rendimento do treino no dia seguinte. Diria que as horas de descanso têm uma importância tão elevada como as horas que passo no mar. Das piores sensações que tenho, durante as competições, são as noites que mal consigo dormir pelas dores musculares, cansaço e stress de competição.

J – O que é que a vela tem de tão especial para ocupar um espaço tão importante na tua vida?
SC – É a sensação que me dá. É um desporto que é desafiante e dá-me uma sensação de liberdade e autonomia tremenda.

J – Como é que te estás a preparar para o Rio’2016? Fazes o treino habitual?
SC – Estou a planear o calendário com mais regatas, treinos, condição física, de acordo com as lacunas que eu e o meu treinador detetamos. Estamos a analisar como vão ser as condições climatéricas que vamos apanhar, dos ventos, correntes, temperaturas, humidade, etc., para irmos o mais preparados possível e o corpo não sofrer com as diferenças. Treino cinco vezes por semana no mar e cinco vezes por semana no ginásio. É um trabalho a tempo inteiro, sem contar que as horas de descanso são regradas e a alimentação cuidada.

J – Treinas sozinha?
SC – Não, em Portugal treino com os rapazes do meu clube que, por sorte, também têm as suas competições internacionais e também se estão a preparar. No estrangeiro, quando vou para as provas, treino com as minhas adversárias. Não todas, algumas, dependendo do meu nível, do nível delas, se nos damos bem, etc. (risos)

J – Tens um currículo recheado de competições, mas os Jogos são sempre um momento especial…
SC – Os Jogos Olímpicos é aquela competição que só há de quatro em quatro anos, o que lhe dá mais enfâse. Dizem que a participação nos Jogos é o culminar da carreira desportiva para qualquer atleta. Uma medalha Olímpica é mais valorizada que uma medalha num mundial.

J – Há tempo para ter vida além da vela?
SC – Agora, nesta fase de preparação para os Jogos Olímpicos, não há quase tempo para mais nada. O tempo em que não estamos a treinar estamos a descansar para o treino seguinte.

J – E como concilias com a Arquitetura?
SC – Normalmente trabalho como ‘freelancer’, com alguns projetos de pessoas amigas e família, mas agora estou dedicada só à vela. Em 2015 deixei de trabalhar a tempo inteiro, para conciliar o trabalho com os treinos e, mesmo assim, não foi suficiente. Então nos últimos cinco meses antes do apuramento estive dedicada só à vela. O tempo é muito escasso e este momento de preparação para os Jogos do Rio nunca mais voltará.

J – Se tivesses que avaliar o estado da vela em Portugal, que diagnóstico fazias?
SC – Está numa fase em que necessita de mudança. A equipa Olímpica que representa hoje Portugal está com uma faixa etária elevada e não será capaz de fazer muitos mais ciclos olímpicos. Portanto é necessário que camadas mais jovens comecem a evoluir e a integrar o Projeto Olímpico.

J – Imaginas-te a viver numa cidade sem mar?
SC – Não se pode dizer não, porque a vida dá muitas voltas, mas para já não. Nem quero imaginar como seria. (risos)

J – Qual é o teu maior sonho em termos desportivos?
SC – Hoje em dia tento tirar prazer de cada momento em que estou no barco. Esta minha segunda participação olímpica foi um grande desafio e objetivo para mim. Sinto que tenho uma carreira desportiva que me faz estar orgulhosa e os sonhos, hoje em dia, construo-os com os pés mais assentes na terra.

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