Casa da Fraga nas Penhas douradas | Foto: Alfredo César Henriques, 1884, col. HGP

A Expedição de 1881: quando a ciência descobriu a Serra da Estrela

Nesse ano, uma grande expedição científica à Serra revelou muitos dos seus segredos.

Por Helena Gonçalves Pinto*, Investigadora Integrada do HTC-CFE NOVA FCSH

A 5 de julho de 1880 surge na Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL) um projeto para realizar uma expedição à Serra da Estrela, com o objetivo de estudar, registar e fotografar o território, dado que era uma região ainda muito pouco conhecida, mas que suscitava deslumbramento e impelia à aventura.

A proposta desta aventura científica foi apresentada por Luciano Baptista Cordeiro de Sousa (1844-1900), sócio fundador, sendo entusiasticamente defendida pelo engenheiro militar e lente de matemática Luís Feliciano Marrecas Ferreira (1851-1928) e pelo médico José Tomás de Sousa Martins (1843-1897). Sem precedentes, os restantes sócios da SGL mobilizaram-se e inscreveram-se voluntariamente. Das delegações da Sociedade de Coimbra e do Porto vieram outros nomes, principalmente, o botânico Júlio Henriques (1838-1928) e o arqueólogo Martins Sarmento (1833-1899).

Este projeto tinha como objetivos o estudo cartográfico, a recolha de espécimes de flora e fauna, de artefactos etnográficos, lendas orais e as estruturas arqueológicas locais. Mas o elemento principal desta grande iniciativa era o estudo da saúde das populações e da sua resistência face ao clima e à grande altitude da montanha, levando os médicos a estabelecerem um plano meticuloso para observar a resistência pulmonar, as doenças oftalmológicas e os benefícios das águas termais.

A Expedição foi dividida em seções, à semelhança das existentes na SGL: Agronomia e Silvicultura, Arqueologia, Antropologia, Geologia, Medicina (incluindo a Subsecção de Hidrologia Mineromedicinal e a subseção de Oftalmologia), Meteorologia, Fotografia e Zoologia, cujo programa de trabalhos foi redigido nas Disposições Regulamentares e, na Estrela, a presidência do projeto ficaria entregue a Hermenegildo Capelo (1841-1917).

Os objetivos específicos da Expedição passaram por estabelecer um posto meteorológico na região dos Cântaros, já que a observação meteorológica, associada com o estudo de climatologia médica e a flora aplicada à farmacopeia, eram fundamentais para toda a investigação programada por Sousa Martins.

Os preparativos foram rápidos, estabeleceram-se grupos de trabalho e equipas, definiram-se estratégias e conselhos, fizeram-se listas de materiais e equipamentos necessários. A Comissão Organizadora foi decisiva para o estabelecimento de parcerias intergovernamentais (ministérios das Obras Públicas, da Guerra e do Reino), e intermunicipais (Guarda, Carregal, Manteigas e Seia), que seriam essenciais para a concretização deste primeiro e ambicioso projeto científico.

Uma vez estabelecido que uma centena de homens iria permanecer quinze dias na Serra, foi necessário preparar a logística e montar um acampamento espaçoso para conter as enormes tendas e barracas de madeira para abrigar os homens e os laboratórios das diferentes especialidades científicas de cada seção.

Reuniram-se equipamentos (termómetros de “funda, de máxima e de mínima”, barómetros, psicómetros) e laboratórios portáteis para as seções de Medicina, Hidrologia Médica, Fotografia, Meteorologia, sendo alguns adquiridos, no estrangeiro, pelo Ministério do Reino, e que no final da expedição seriam entregues para serviço no Observatório D. Luís.

A viagem: os desafios e a aventura

No dia 1 de agosto parte da estação da linha do Norte, um comboio alugado com quarenta e três expedicionários, sob forte aclamação por parte da assistência que se compunha de membros do Governo, SGL, Universidades, familiares e do público que acompanhava os preparativos pelas notícias dos jornais.

Todo o percurso em caminho-de-ferro foi acompanhado pelas populações que acorriam às estações para saudar os expedicionários. A partir da cidade da Guarda, a caravana partiu de noite, até Gaia e daí a cavalo, passando por Valhelhas, em direção a Manteigas, onde fez uma paragem para almoço e descanso. Nesta localidade ficaram os médicos Augusto Jacinto Medina e Leonardo Torres, para realizar os estudos de Medicina Hidrológica, desde a análise química das águas à observação dos aquistas a banhos.

O restante grupo continuou a marcha, em direção ao Planalto Superior da Estrela, encontrando a parte mais sinuosa do trajeto, formando escaladas e descidas por terrenos ingremes, virgens e rochosos, testando a coragem e a resistência física destes homens e dos seus cavalos, compensados pela fascinante paisagem que se desenrolava. Já de noite, a emoção apoderou-se da caravana quando avistou o acampamento onde foram recebidos por salvas de tiros e gritos de triunfo, a 5 de agosto.

No dia seguinte, puderam observar o rigor da estrutura do acampamento que, alguns meses antes, fora acomodada pelo condutor de obras públicas Norberto Campos, e era composto por uma barraca principal que servia de dormitório (à noite) e de refeitório (durante o dia), um pavilhão de madeira, para arrecadação dos alimentos e dos materiais de logística; atrás foi colocada a barraca para o pessoal auxiliar, moços, guias e destacamento militar; a barraca da administração; mais afastada (para salvaguarda em caso de explosão) ficou o laboratório químico; uma barraca para o pessoal superior; a da administração e a da seção médica. Desse lado, num plano superior, ficaram as barracas de Zoologia e de Fotografia; uma cozinha (instalada num edifício com paredes em pedra solta e teto de madeira, para evitar os incêndios); no centro do acampamento estruturou-se um pequeno largo, no qual foi hasteada a bandeira da SGL. Na elevação superior do terreno, desse lado, ficaram os edifícios do observatório meteorológico, constituídos por um pavilhão de madeira, que também serviria de dormitório aos observadores Hermenegildo Capelo, Carlos da Silva e Jaime Silva. Um pequeno pavilhão, com cobertura de colmo, teria um outro aparelho de observação. Para além deste conjunto de barracas e pavilhões, foi construída uma cavalariça. Nas localidades próximas foram contratados caçadores, para fornecerem caça e alguns comerciantes traziam alguns produtos necessários.

Os estudos científicos: do trabalho de campo aos gabinetes e laboratórios de investigação

As observações foram registadas em cadernos de campo, através de texto, desenho e, pioneiramente, fotografia, com o apoio dos técnicos cedidos pelo exército português.

Os dados e os espécimes colhidos na Serra seriam posteriormente analisados, podendo toda a equipa contar com o apoio das universidades e dos centros de investigação, a que pertencia a maioria dos expedicionários. Os trabalhos seriam da responsabilidade individual e coletiva dos membros das seções, e cada equipa tinha um prazo de seis meses para a entrega dos relatórios gerais ou parciais à Comissão Executiva.

Os resultados e a difusão de conhecimento

Os programas previstos inicialmente foram cumpridos pelas Secções envolvidas nesta pioneira Expedição Científica à Serra da Estrela, permitindo conhecer a orografia (planaltos, vales profundos e abrigados, encostas arborizadas), a origem, profundidade e importância das lagoas, os cursos dos rios, as características das águas termais, a orientação dos ventos e a relação climática, as plantas e a vegetação (alpina e agrária), as lendas na tradição oral, a descrição das antiguidades e as doenças dos habitantes locais. Mais pioneiros e desafiadores foram os resultados para a criação de uma estância climatérica de cura da tuberculose, sendo construído um observatório da Meteorologia, no Poio Negro (o ponto mais elevado do local do acampamento, acima dos 700 metros da vila de Manteigas), a instalação de um posto de correios e de Telégrafo-Postal.

Mas também a seção de Botânica produziu um importante estudo para o conhecimento das espécies, tendo as herborizações contribuído com a recolha de espécimes e o seu depósito para estudo científico nos Herbários e nos Jardins Botânicos de Lisboa e de Coimbra. Todos os estudos e levantamentos, desenhos e fotografias realizados na Serra, deveriam reverter na produção científica de relatórios a editar exclusivamente pela Sociedade de Geografia de Lisboa. Durante esse período, foi intensa a colaboração entre os especialistas, tendo em vista a revisão, confirmação e aferição das matérias. Esses contributos são visíveis na documentação trocada entre Júlio Henriques, Júlio Daveau e Jaime Batalha Reis. Não foram publicados os relatórios de Agronomia, Antropologia, Química, Geologia, Hidrologia, Fotografia, Zoologia e Zootécnica.

Expedição científica à Serra da Estrela em 1881, Seção de Medicina, Sub-seção de Hidrologia Minero Medicinal. Relatórios dos drs. Leonardo Torres e Jacinto Augusto Medina, SGL, 1883, col. HGP

A seção de Medicina realizou o estudo estratégico mais importante. Os dados atmosféricos, água e estado de saúde das populações foram minuciosamente compilados e divulgados nas sessões de ciências médicas. Um dos textos mais importantes foi “A Tuberculose Pulmonar e o Clima de Altitude da Serra da Estrela” (1890), escrito por Sousa Martins e dirigido ao Governo, reforçando a ideia do aproveitamento da Serra para a instalação de sanatórios e casas de saúde.

A Expedição Científica à Serra da Estrela modificaria, definitivamente, o conhecimento deste território, que atribuiria, pela primeira vez, um valor estratégico para o desenvolvimento e progresso da região, sobretudo na preservação da biodiversidade.

(*) Este artigo foi escrito no âmbito da parceria entre o Laboratório de História, Territórios e Comunidades – CFE NOVA FCSH (https://htc.fcsh.unl.pt) e o Jornalíssimo, com coordenação de Maria Fernanda Rollo.

Bibliografia
Castanheira, Alexandre de Abreu (1836). As Alagoas da Serra da Estrela. Lisboa: Typ. Viúva Silva e Filhos

Henriques, F. Fonseca (1726). Aquilégio Medicinal. Lisboa Occidental: Oficina da Música

Pinto, Helena Gonçalves (2019) “A expedição científica à Serra da Estrela em 1881. Da aventura ao domínio do território”, Iberografias, n. 15, Guarda

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