“Vou fazer um ‘zoom out’ à minha vida”

Afonso Tuna tem 15 anos e decidiu ir estudar um ano noutro país. Em agosto conhecerá a sua nova família, na Holanda.

Os bilhetes de viagem estão comprados. Tanto os de ida, como os de regresso: a 21 de agosto, Afonso Tuna parte sozinho para a Holanda e só voltará a Portugal daqui por um ano, em julho de 2016. Nem mesmo no Natal ou nas férias da Páscoa está previsto vir passar uns dias ao país de origem.

“É preciso ter uma loucura saudável”, nota a rir Afonso, contando que ainda nenhum dos amigos lhe disse que também gostaria de fazer o mesmo. Compreende que “é uma ideia um pouco assustadora, a de nos afastarmos de tudo o que conhecemos durante um ano”.

Afonso  – e mais 54 jovens portugueses entre os 15 e os 18 anos – está de malas feitas para participar no Programa Académico AFS, que leva jovens a fazer um ano (ou um trimestre) do ensino secundário noutro país, em qualquer parte do mundo, em casa de uma família de acolhimento voluntária.

DA ARGENTINA À TAILÂNDIA

Este ano, a lista de destino destes aventureiros inclui 12 países: a maioria escolheu os Estados Unidos, mas partem portugueses para famílias na Itália, Holanda, Japão, Alemanha, Noruega, Dinamarca, Argentina, Áustria, Bélgica, Hungria e Tailândia.

Afonso ainda não sabe nada acerca da família que o irá receber. Será um casal hetero ou homossexual? Será uma família monoparental? Terá, ou não, filhos? Quando se candidatou, não colocou qualquer restrição em termos de família de acolhimento. Há a possibilidade de pedir para não ser recebido por um casal homossexual, por uma família monoparental sem filhos ou, ainda, por uma família que acolha mais do que um estudante.

O jovem, que acabou o 10º ano e vai fazer o 11º numa escola holandesa, não esconde a ansiedade que sente por estes dias. E, sim, “alguma angústia”. Mas lida bem com ambas: “a preparação que tivemos até aqui é essencial. Provavelmente se fosse como quando me inscrevi iria ser um choque incrível”, observa.

MUITOS MESES DE PREPARAÇÃO

Desde que se inscreveu, em dezembro do ano passado, Afonso teve já diversos momentos de preparação. O primeiro foi o chamado “campo de seleção”. Durante um fim-de-semana, os candidatos são confrontados com uma série de situações que testam as suas capacidades sociais, como a interação ou o trabalho de equipa.

Passada esta etapa, os que são selecionados (ou os que não desistem…), participam ao longo do ano em mais campos de preparação para a experiência. Neles, contactam com famílias que acolheram AFS’ers (o nome dado aos participantes neste programa internacional) e com jovens que já viveram a experiência.

O objetivo, conta Afonso, “é preparar-nos para as dificuldades que vamos encontrar, fazer atividades de educação informal, para nos tornarmos mais abertos e tolerantes”. Um exemplo? “Ensinam-nos a não estranhar os costumes dos outros logo à partida, a tentar entendê-los antes de tirar conclusões”.

SUPERAR AS DIFICULDADES…

Os campos são importantes, também, para aprender a lidar com as diferenças de humor, que são normais e vão acontecer, também, durante o ano em que se está fora – há momentos de grande entusiasmo e outros de alguma angústia.

Afonso explica que é por isso que são aconselhados a não comunicar muito com a família natural quando fazem o intercâmbio – só devem falar uma vez de duas em duas ou de três em três semanas. Assusta, mas Afonso explica a razão de ser: “quando enfrentarmos as primeiras dificuldades lá, o primeiro instinto será pedir ajuda à família natural e amigos de cá. O conselho deles vai ser ‘volta’ e isso é o pior que nos podem dizer”. Com menos contactos, “somos obrigados a criar laços com as pessoas que temos perto”.

Pela mesma razão, os familiares só devem ir visitar os jovens passados uns bons meses da partida: “só nos devem ir ver a partir da Páscoa, altura em que a nossa integração lá já é maior”, explica Afonso. Na Holanda, mesmo assim, essa visita dos familiares não deve durar mais de três dias.

EQUIVALÊNCIAS? TALVEZ

Extrovertido, bom comunicador e confiante, Afonso não está preocupado com a possibilidade – “provável”, diz ele – de perder o ano. Vai tentar obter equivalências, mas sabe que, mesmo que os currículos de lá e de cá sejam parecidos, o facto de ir aprender toda a matéria em holandês (já está a fazer um curso de língua, que durará até dezembro) lhe vai complicar o sucesso nos exames cá em Portugal.

Afonso sabe que, mesmo perdendo o ano, vai sair a ganhar: conhecerá um país e uma língua diferentes, terá uma “imersão numa família e numa cultura”. “Vou perceber muito melhor como estou, quem sou”, pensa.

Afonso recorre à expressão de um AFS’er estrangeiro para expressar melhor o que pretende com este programa: “Vou fazer um ‘zoom out’ à minha vida”. E concretiza: ” É abrir os horizontes, mas num sentido mais profundo. Se calhar a minha ideia de bem e de mal vai mudar, vou ter mais situações para comparar. Não é perder o que tenho cá, nem substituir isto pelo que vou encontrar lá”.

Neste momento, não esconde a ansiedade de conhecer a família que o vai acolher. Confessa que já idealizou uma, mas não quer pensar muito nisso. O maior receio, para ele, não é tanto a família, mas o local: “gostava de ficar numa cidade grande”, transmite.

SUSPENSE…

“As famílias escolhem-nos dentro de muitas opções. À partida, escolhem-nos porque se identificam connosco e isso dá muita confiança”, justifica.

Quando é selecionado para participar no programa, depois da inscrição, o candidato preenche uma série de documentos. Entre eles, escreve um perfil em que se apresenta, conta quem é, como é, que interesses tem, como gosta de ocupar o tempo. Escreve, também, uma carta dirigida à família de acolhimento (mesmo estando a muitos meses de a conhecer).

É a partir dessa apresentação escrita que as famílias inscritas vão escolher o estudante. E, também elas, vão escrever o seu perfil e uma carta ao candidato. É essa carta que Afonso está ansioso por receber. Aí, saberá quem são as pessoas que vão ser a sua “família” no próximo ano. Possivelmente, trocará emails e falará com elas, via Skype, antes de partir para a Holanda. Conhecê-las, pessoalmente, só acontecerá quando aterrar na Holanda, no dia 21 de agosto.

Sobre as famílias de acolhimento, podes ler o artigo que publicámos na semana passada.

Se quiseres saber mais informação sobre o programa, consulta o site da AFS, onde tens toda a informação sobre quem se pode candidatar, como, quais os custos de participação (são elevados porque incluem muitos gastos, como viagens e manuais escolares, mas podes candidatar-te a uma bolsa – o Afonso, por exemplo, teve uma bolsa para o ajudar a suportar os 7050 euros que custava o seu programa). Se clicares no separador “Estudar no Estrangeiro”, encontras no final do texto um manual que podes descarregar com informação útil.

Quanto ao Afonso, só resta desejar-lhe uma boa viagem e dizer que ficamos a aguardar um relato dele sobre a experiência, depois de se sentir “em casa” na Holanda.

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