História 23 agosto 2019
Foto: João Paulo/Pixabay

Entre os arquipélagos e o continente existem em Portugal pelo menos duas dezenas de museus com coleções relevantes sobre a relação entre os portugueses e o mar.

Por José Vale*

Tradicionalmente, o que se espera de um museu de temática marítima (e entendemos aqui o mar nas suas múltiplas dimensões: marítima, fluvial e lagunar).é que trabalhe na investigação, documentação, conservação e exposição dos traços materiais e imateriais que caracterizam as culturas marítimas, reforçando a relação das pessoas com o elemento “água” e valorizando os sítios costeiros em que estas dinâmicas têm lugar.

Este foco nas comunidades de referência e nos espaços em que vivem, enquadra a problemática do património marítimo numa dimensão territorial que, sendo desejável, não deve encerrar a questão.

Os dias que correm evidenciam relações por vezes difíceis de captar ou articular. Vejam-se, por exemplo, a extrema volatilidade das profissões ligadas ao mar, ou o difícil diálogo entre um presente assente em antigos hábitos piscatórios e o problema da sustentabilidade dos recursos marinhos.

Ora, é exatamente para este carácter que transcende o local que gostaria de chamar a vossa atenção.

Estamos em época estival, altura em que muitos de nós nos deslocamos para a “borda d’água”, procurando descansar das aulas ou do trabalho e recarregando energias para os dias que estão pela frente. É, portanto, o momento ideal para dedicarmos um pouco de atenção a esse passado supostamente “marítimo” que quase todos nós assumimos e enraizamos na temeridade dos nossos navegadores quatrocentistas, no facto de termos dado “novos mundos ao mundo”, ou ainda nas imagens dos nossos pescadores da malha, à sardinha, no copejo do atum, ou na épica faina do bacalhau. É o momento de tentar encontrar nas comunidades locais as expressões dessa cultura própria – a gastronomia, a religiosidade, a linguagem, etc. - e no território as evidências materiais das práticas que lhe estão associadas – as embarcações tradicionais, as antigas docas, os aprestos marítimos, os museus locais, etc..

Mas é também a altura ideal para, até numa dimensão de responsabilidade social, propormos novos enquadramentos e novos diálogos. Cabe a todos mas sobretudo aos mais jovens – pela simples razão da sua irreverência e agenciamento do tempo presente – propor novos temas e novos modos de olhar o mar e todas as restantes “coisas do mar”.  Não existe escassez de temas mais contemporâneos e com óbvio impacto no futuro da qualidade de vida dos mais jovens, tais como a relação entre o aumento dos índices de transporte marítimo de mercadorias e de passageiros e a subida dos níveis de poluição daí resultantes; o impacto dos navios de cruzeiro na vida das metrópoles que constituem destinos turísticos; ou as consequências do aquecimento global na subida dos níveis do mar e a sua influência na Geografia Física e Humana, de que o exemplo dos eco-refugiados é paradigmático.

O futuro de todos nós reside na construção de um conhecimento e de uma compreensão que não basta serem comuns. Têm que assentar numa permanente partilha (que é também intergeracional), e no estabelecimento de pontes entre contextos, de modo a que o património marítimo possa ser apropriado abarcando simultaneamente o “local”, ou seja, o que tem um carácter mais identitário, e o “global”, isto é, o que diz respeito ao que partilhamos como seres humanos.

(*) Este artigo foi escrito no âmbito da parceria entre o Laboratório de História do Instituto de História Contemporânea (IHC), da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa - e o Jornalíssimo, com coordenação de Maria Fernanda Rollo, Luísa Metelo Seixas, Ricardo Castro e Susana Domingues.

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Escrito por Jornalissimo
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