Cartaz usado nos acontecimentos da Capela do Rato e arquivado na Torre do Tombo

1972/73: a Capela do Rato, uma areia que fez parar a engrenagem

Há 50 anos, católicos que se opunham à Guerra Colonial paralisaram o Estado Novo. Acelerava-se a sua desintegração.

Por João Francisco Pereira*
Nos finais de 1972 alguns católicos que faziam parte da comunidade da capela do Rato, a quem se juntaram pessoas de outras sensibilidades, decidiram desafiar o regime realizando uma vigília pela paz tendo consciência que esse gesto lhes poderia trazer consequências incómodas.

A guerra colonial foi para os meios católicos esclarecidos o ponto de viragem na sua relação com o Estado Novo, assumindo desde então posturas que variavam entre a simples desafeição até à contestação assumida. A Capela do Rato tornou-se um símbolo da resistência católica que conseguiu paralisar um regime durante alguns dias. Estes acontecimentos foram noticiados nos periódicos dos mais variados países do mundo e tornou-se patente a progressiva desintegração da base de apoio do Estado Novo.

Um gesto que não se pode ignorar

No dia 30 de dezembro de 1972 depois da missa vespertina celebrada pelo Padre João Seabra Diniz, seis pessoas aproximam-se do altar da Capela de Nossa Senhora da Bonança (ou “Capela do Rato”). Do grupo destaca-se uma mulher, Maria da Conceição Moita, que se acerca do microfone e anuncia que se encontram ali para “comunicar uma decisão e pôr um problema a toda a comunidade”, lendo uma declaração em que dá conta de uma “vigília de 48 horas”, em jejum, como forma de protesto contra a guerra colonial.

Pelas três da manhã, altura em que as portas do templo são encerradas ao exterior, aprova-se uma moção condenando a cumplicidade dos bispos “na política de exploração colonial praticada pelo governo fascista português”.

Cartaz arquivado na Torre do Tombo

No dia 31 de Dezembro de 1972, domingo, celebram-se as missas habituais das 11 horas e das 12 e 30. Em vez de fazerem homilia, os padres António Janela e Armindo Garcia leem um texto redigido em conjunto com o Padre Alberto Neto, em que informam a assistência do seguinte modo: “Seja qual for a nossa posição diante deste gesto, ele tem um sentido interpelativo de tal densidade que não o podemos ignorar”.

Sophia e Zeca Afonso entre os presentes

Durante a tarde, prosseguiram os debates, sob o lema “A Paz é Possível”, tema anunciado pelo Papa Paulo VI para dar o mote às comemorações do Dia Mundial da Paz, que a Igreja celebraria em 1 de janeiro. Nessa altura, reuniam-se já cerca de duas centenas de pessoas no interior do recinto. Na Capela entram personalidades como a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, ou o cantor José Afonso.

Nessa tarde foi aprovada uma segunda moção que, entre o mais, considerava “justa a luta dos povos das colónias”. Os participantes organizam-se em assembleias, cujos coordenadores são escolhidos no próprio local: a primeira discute a presença portuguesa em África, com destaque para o papel da Igreja na colonização; a segunda, realizada já no domingo, aborda especificamente o tema da guerra.

Cartaz arquivado na Torre do Tombo

Nessa tarde de domingo, encontravam-se no local cerca de trezentas pessoas quando chega uma mensagem de solidariedade de católicos do Porto, além de exemplares de panfletos que estavam a ser distribuídos em Lisboa a apelar à ida ao Rato.

Ainda durante a tarde, explodem petardos na região da Grande Lisboa, espalhando panfletos em nome dos “Trabalhadores Revolucionários”, a apelar à comparência na Capela do Rato. Por acidente, pelo menos duas crianças ficam feridas com gravidade na explosão daqueles petardos.

A intervenção policial e a prisão de alguns manifestantes

No final do dia 31 de dezembro, cerca das 19 horas, as forças policiais começam a concentrar-se em redor da Capela. Pelas 20 e 30, encontram-se no local dez carrinhas com polícia de choque e cães, além de viaturas de outras forças de segurança. O trânsito é controlado e a zona encontra-se isolada.

Após um breve compasso de espera, um graduado da Polícia de Segurança Pública (PSP) entra na capela e, pelas 20 e 45, dá um prazo de dez minutos para que os presentes abandonem o local. Segundo o seu relatório, as pessoas não acatam a ordem e começam a cantar em coro “Perdoai-lhes, Senhor, que eles não sabem o que fazem”. Agentes da PSP penetram no edifício. Os presentes, no entanto, recusam-se a sair, pretendendo saber se a PSP possuí uma autorização do Patriarcado para entrar na capela. Acabam arrastados pela polícia para o exterior.

A maior parte, depois de identificada, é posta em liberdade, à exceção de catorze, que são levados para o Governo Civil e, já de madrugada, para a prisão de Caxias, onde permaneceriam presos cerca de quinze dias à guarda da Direcção-Geral de Segurança (DGS).

Os agentes da PSP revistam a Capela, apreendendo documentos e publicações. Pelas 22 horas comparece na Capela o Padre António Janela para a celebração da missa da meia-noite. Tinha sido informado pela PSP que a dita celebração não se poderia realizar e o mesmo aconteceria com as celebrações do dia 1 de janeiro. Como não havia proibição do bispo, o Padre Janela e os cristãos que se tinham reunido decidem celebrar a missa com a porta da Capela fechada. No final da celebração elaboram uma ata para entregar ao Patriarca de Lisboa.

No dia 1 de janeiro de 1973, pelas 10 horas, o Padre Janela entrega a referida ata ao Patriarca e recebe dele a autorização para celebrar as missas previstas. No final da missa das 11 horas, o Padre Janela é detido pelo capitão Maltez, levado à Esquadra do Rato e posteriormente para a sede da DGS onde permanece até ser libertado após diligências feitas pelo Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro.

No final deste mês completam-se cinquenta anos sobre o que se designa como “acontecimentos da Capela do Rato”. Estes evidenciaram que o Estado Novo já não poderia contar com o apoio unívoco dos católicos em Portugal. Alguns deles ainda estão vivos e prontos para contar todos os pormenores deste caso. Acompanha o programa que a Comissão dos 50 anos do 25 de Abril está a preparar.

Fotos: Arquivo da Torre do Tombo

(*) ICNOVA – Instituto de Comunicação da NOVA e HTC — CFE — Nova FCSH. Este artigo foi escrito no âmbito da parceria entre o Laboratório de História, Territórios e Comunidades – CFE NOVA FCSH e o Jornalíssimo, com coordenação de Maria Fernanda Rollo.

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