A bandeira pan-africana representa os povos africanos na diáspora | Foto: Thomas Cizauskas/Creative Commons

EUA: O dia em que nasce um feriado nacional

A 19 de junho a abolição da escravatura passa a ser comemorada em todo o país

Não é todos os dias que nasce um feriado nacional. Nos Estados Unidos da América, isso não acontecia há 38 anos, desde que foi instituído o Dia de Martin Luther King Jr., em 1983.

Mas, esta semana, o Presidente Joe Biden assinou uma lei que institui o dia 19 de junho como festividade nacional para assinalar e celebrar a abolição da escravatura.

Foi a 19 de junho de 1865 (portanto, há 156 anos e apenas 89 anos depois de os Estados Unidos se terem tornado independentes da Grã-Bretanha, a 4 de julho de 1776) que foram libertados os últimos escravos norte-americanos em Galveston, no Texas. Daí ser este o dia escolhido para celebrar o fim da escravatura.

A carga simbólica do novo feriado

Na realidade, o Juneteenth (nome pelo qual a data é conhecida nos Estados Unidos, uma junção da palavra ‘junho’ com o número 19) já é comemorado há muitos anos em várias partes do país, com desfiles, concertos, leituras de poemas e outras iniciativas. Há até vários Estados norte-americanos, como o Texas, em que o dia 19 de junho já é feriado há vários anos.

No entanto, o facto de Juneteenth passar a ser feriado em todo o país, isto é, nos 50 Estados norte-americanos e não só em alguns, tem um significado simbólico muito grande.

Trata-se de um reconhecimento oficial, por parte dos Estados Unidos da América, de que, por um lado, a população afro-americana foi alvo e sofreu uma discriminação profunda ao ter sido escravizada e, por outro, de que esta população foi determinante para a construção do país.

O momento em que esta decisão acontece é, também ele, significativo: os E.U.A. continuam a assistir a muitos crimes motivados por ódio racial.

Reconhecer é o primeiro passo

Um desses crimes foi o que envolveu George Floyd, um homem negro morto às mãos de um polícia branco em Minneapolis em maio de 2020. As imagens desse homicídio, captadas por uma adolescente norte-americana de 17 anos, Darnella Frazier, correram mundo e motivaram protestos monumentais do movimento antirracista Black Lives Matter (Vidas negras importam, em tradução livre).

Para o feriado nacional ser uma realidade, a proposta, apresentada pelos Democratas (o partido de Joe Biden) tinha que ser aprovado pelas duas partes do Congresso. Se, na Câmara dos representantes, houve ainda 14 republicanos (o partido do ex-presidente Donald Trump) que votaram contra, frente a 415 republicanos e democratas que votaram a favor, no Senado todos os membros foram a favor da instituição do Juneteenth como feriado nacional.

Joe Biden, acompanhado da sua vice-presidente afrodescendente Kamala Harris, disse tratar-se de uma decisão fundamental que recorda “o preço terrível que o país pagou e continua a pagar pela escravatura”, aludindo à tal tensão racial ainda notória no país. O Presidente acrescentou, também, que “As grandes nações não ignoram o seu passado, reconhecem-no para o poderem sarar”.

Reconhecer a existência de um problema é, muitas vezes, o primeiro passo para o poder resolver.

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