Apresentação dos trabalhos do Programa de Iniciação à Investigação Histórica no Liceu Camões | Foto: D.R.

No Liceu camões, a História é outra

Numa parceria com a Universidade Nova de Lisboa, os alunos do 12º ano fazem investigação científica.

Quem pensa que, no Ensino Secundário, História é só teoria é porque não conhece o Programa de Iniciação à Investigação Histórica, uma parceria entre a Escola Secundária de Camões (o célebre Liceu Camões, fundado nos inícios do século XX), em Lisboa, e o Laboratório de História, Territórios e Comunidades (parceiro do Jornalíssimo).

Para o diretor do Liceu Camões, João Jaime Pires, este programa “mostra que é possível trabalhar de outra forma que não só a pergunta, a resposta, a ficha, o teste, semelhante ao exame nacional, em que o aluno ingere, digere, debita infomação”.

De facto, para duas turmas desta escola (neste ano letivo de 2021/22, foram as turmas L e K as abrangidas pelo projeto), a história é outra. Começam logo no início do ano por formar grupos e cada grupo escolhe um tema relacionado com a história do século XX para trabalhar. Em função do assunto selecionado, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa indica investigadores de História para serem tutores e orientarem cada um dos grupos na realização do trabalho.

Aprender a resistir à frustração…

“Os tutores lançam os desafios, as pistas, as ligações com o tecido que está externo à escola”, explica a historiadora Helena Gonçalves Pinto, que acompanhou um dos grupos na realização de um projeto sobre “A Saúde Escolar nos Liceus do Estado Novo”.

Apesar do trabalho feito pelos estudantes no âmbito deste projeto não se desenvolver em exclusivo dentro das paredes da sala de aula e envolver outros profissionais, além do professor ou da professora da disciplina, o trabalho não só é de caráter obrigatório como conta para a nota.

Os conhecimentos vão também para lá daqueles que normalmente são ensinados em História no 12º ano. Catarina Leal, do MUESC, o Museu do Liceu Camões, explica que o processo de aprendizagem feito pelos participantes neste Programa de Iniciação à Investigação Histórica implica “perceber o que é um arquivo, perceber a frustração de não se encontrar logo um documento e ser preciso percorrer vários, perceber a fragilidade desses documentos, perceber a dificuldade de leitura de uma caligrafia que é tão diferente da que usamos hoje, perceber as ideias implícitas e explícitas que estão nesses documentos”.

E os temas deste ano foram…

Os alunos envolvidos aprendem e praticam as várias etapas por que passa um investigador num processo de investigação científica – a pesquisa bibliográfica, a procura, o tratamento e a análise das fontes, a publicação de um artigo científico. Perseverança, pensamento crítico, capacidade de síntese são qualidades que se desenvolvem ao longo de todo o processo.

Talvez não por acaso, mas porque no Liceu Camões existe um museu com um espólio rico e muito material ainda por desvendar, muitos dos temas que os alunos e as alunas envolvidos no programa escolheram tratar cruzam a História de Portugal (às vezes até do mundo) com a história da própria escola e do ensino no país.

Ficam aqui os temas de todos os trabalhos desenvolvidos pelos grupos e que foram apresentados no Auditório do Liceu Camões na tarde do passado dia 12 de maio. Podes assistir à apresentação dos trabalhos neste vídeo que documenta toda a sessão. Foi de lá que retirámos as declarações que citamos neste artigo.

  • A ideologia imperial e colonial portuguesa nos Liceus do Estado Novo
  • O impacto da Guerra das Trincheiras numa geração: o caso do Liceu Camões
  • Ser rapariga no Portugal de Marcello Caetano – O desdobramento feminino do Liceu Camões (1971-1974)
  • A saúde escolar no Liceu do Estado Novo
  • O Liceu Camões e o Comício de Humberto Delgado (1958)
  • A Pneumónica e o Liceu Camões
  • A implantação da Mocidade Portuguesa em Portugal e no Liceu camões (1937-década de 1949)
  • O PREC no Liceu Camões
  • Educar a “Bem da Nação” (a transmissão de valores e de uma Moral no Liceu Camões, de 1936 a 1959)
  • Perfil pedagógico e nacional da educação da Primeira República (o Liceu Camões e o Ministério da Instrução Pública)
  • A Mocidade Portuguesa e o Liceu Camões – A Fundação (1936-1940)
  • Ser rapariga e adolescente no final do Estado Novo (o desdobramento feminino no Liceu Camões entre 1971-1974)
  • Objetivos de uma Geração Fundadora do Liceu Camões

Mais escolas podem aderir

Além da sessão pública de apresentação dos trabalhos, é sempre publicado um ebook com os artigos correspondentes. O ebook deste ano ainda não está disponível (podes consultar aqui os dos anos anteriores).

O Laboratório de História, Territórios e Comunidades está disponível para alargar este projeto a outras escolas de Lisboa.

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