Maria Lamas discursando num comício em Lisboa aquando da candidatura de Norton de Matos às eleições presidenciais. 10 de fevereiro de 1949. Fundação Mário Soares e Maria Barroso.

Operárias ou intelectuais, as mulheres também combateram o Estado Novo

Ao longo de mais de 40 anos de ditadura, as mulheres portuguesas constituíram uma força fundamental de oposição e resistência ao Estado Novo.

Por Joana Ralão*
Operárias e camponesas, intelectuais e estudantes, trabalhadoras e “donas de casa”, provenientes de campos ideológicos diferentes e com origens socioeconómicas distintas, lutaram pelo fim de um regime cerceador das liberdades fundamentais e muitas delas não escaparam à repressão. Neste artigo, percorremos os caminhos de diferentes mulheres que se empenharam ativamente na alteração da situação política, económica e social do país, procurando recordar e restituir o seu papel na resistência ao Estado Novo.

“As mulheres estão sempre à frente de todos os protestos, desde que pressintam a ameaça de um agravamento nas condições já tão precárias do seu viver.”

(As Mulheres do Meu País)

Multifacetada, plural e heterógena, a oposição e resistência das mulheres à ditadura fez-se sentir nos mais diversos planos. Muitas delas começaram por integrar associações de mulheres como o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas ou a Associação Feminina para a Paz, duas organizações encerradas pelo Estado Novo em 1947 e 1952, respetivamente. Entre as suas sócias e ativistas encontramos mulheres (e homens) antifascistas que integravam outros movimentos oposicionistas, como o Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) ou o Movimento de Unidade Democrática (MUD), e que participaram ativamente na campanha eleitoral de 1949.

Uma luta em várias frentes

Nesse ano, as apoiantes do candidato da oposição, Norton de Matos, constituíram uma Comissão de Mulheres, mobilizando-se a favor da luta pela democracia no país. Elas intervieram publicamente em apoio ao candidato, falaram nos comícios, marcaram presença nas palestras e debates, e sentiram na pele a repressão do regime.

Entretanto, era sobretudo no mundo do trabalho que diariamente as mulheres faziam ouvir as suas reivindicações, lutando pelos seus postos de emprego, pelas oito horas, pelos aumentos salariais ou por melhorias das condições de trabalho. Ainda no rescaldo da II Guerra Mundial, milhares de mulheres manifestaram-se contra a falta de géneros e o racionamento do pão, organizando marchas de fome, duramente reprimidas pelas forças policiais. Mais tarde, e apenas nos primeiros cinco anos da década de 50, registaram-se mais de 70 situações de luta em vários locais de trabalho.

Os anos de endurecimento do regime foram também anos de recuo para a oposição que apenas retomaria fôlego aquando das eleições presidenciais de 1958. Nesta altura, muitas mulheres organizam-se e constituem uma Comissão Feminina em apoio ao general Humberto Delgado. Surgem também novos rostos na oposição e várias mulheres iniciam a sua atividade política efetiva. As eleições saldam-se pela vitória do candidato do regime, Américo Tomás. Porém, as ondas de choque e descontentamento popular que se seguem estendem-se até ao ano de 1962.

Resistir nos últimos anos do regime

Neste mesmo ano de 62 tem lugar em Lisboa e em Coimbra a denominada “crise académica”. As estudantes que entravam em força no ensino superior marcam presença em todos os momentos de contestação: plenários, reuniões, greves às aulas, manifestações de rua e também na greve de fome. Algumas são inclusivamente presas e suspensas das universidades de todo o país.

Plenário em frente da Faculdade de Letras. 25 de março de 1962 | Foto: Fundação Mário Soares e Maria Barroso (reprodução).

Outras mulheres viram-se ainda obrigadas a mergulhar na clandestinidade e a levarem vidas inventadas, longe dos familiares e amigos. Aqui desempenharam um papel fundamental na divulgação de informações, assegurando a composição e impressão dos materiais das tipografias clandestinas ou integrando o corpo redatorial das rádios clandestinas.

A forte instabilidade social gerada pelo início da guerra colonial em 1961 marcou os anos de agonia final do regime. Em 1968 dá-se a substituição de António de Oliveira Salazar por Marcelo Caetano. Surgem promessas de mudança e em 1969 decorrem as primeiras eleições para a Assembleia Nacional. As mulheres marcam presença e surgem as primeiras candidatas nas listas da oposição da CDE e da CEUD. Em 1973 dão-se as segundas eleições em período marcelista. Entre a lista de candidatos da oposição voltam a surgir nomes de mulheres, inclusivamente de uma operária, e são discutidas questões em torno dos problemas das mulheres trabalhadoras. Neste mesmo ano de 1973, três escritoras – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa – são julgadas em tribunal pela obra conjunta Novas Cartas Portuguesas.

De 30 mil presos, 2141 eram mulheres…

Conscientes das consequências e sacríficos que a sua oposição poderia comportar, muitas das mulheres que aqui referimos sofreram prisões e torturas sucessivas. Os arquivos da polícia política do Estado Novo contabilizam a prisão de 2141 mulheres num total de 30 mil presos. Eram jovens, a maioria com idades compreendidas entre os 20 e os 40 anos. Nas mãos da PIDE foram sujeitas à privação do sono, à “estátua”, aos espancamentos, ao isolamento e às chantagens emocionais e, ainda hoje, carregam consigo as marcas psicológicas e as memórias dolorosas destes tempos.

25 de Abril de 1974. As mulheres participaram ativamente no processo revolucionário e detiveram um papel fundamental na construção da democracia. E ontem, como hoje, elas marcam presença em todas as movimentações sociais, encabeçando e protagonizando as mais diversas lutas e reivindicações.

Foto de abertura:
Maria Lamas discursando num comício em Lisboa aquando da candidatura de Norton de Matos às eleições presidenciais. 10 de fevereiro de 1949. Fundação Mário Soares e Maria Barroso.

(*) Investigadora do HTC-CFE, NOVA FCSH. Este artigo foi escrito no âmbito da parceria entre o Laboratório de História, Territórios e Comunidades – CFE NOVA FCSH e o Jornalíssimo, com coordenação de Maria Fernanda Rollo.

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