Portugal e a Grande Guerra: um encontro com 100 anos

Em março de 1916, a Alemanha declarou guerra a Portugal e o país entrou no primeiro grande conflito mundial.  Este artigo recorda esse momento e os episódios que o antecederam.

Por Ana Paula Pires (asoarespires@gmail.com)* – Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa

A 28 de Junho de 1914 o herdeiro do trono da Áustria-Hungria, Francisco Fernando, e a sua mulher, a duquesa de Hohenburg, foram assassinados na capital da Bósnia. Os conspiradores de Sarajevo (incluindo Gavrilo Princip, que disparou os tiros fatais) eram sérvios bósnios – súbditos do império Austro-Húngaro – com ligações ao grupo Mão Negra, que os teria armado e ajudado a atravessar a fronteira. 

A diplomacia austríaca tardou a reagir ao assassínio de Francisco Fernando. Só a 23 de Julho, após a garantia dada pelo kaiser alemão Guilherme II de que, em caso de guerra, a Alemanha alinharia ao lado do Império Austro-Húngaro, é que Viena dirigiu um ultimato à Sérvia. 

 

A 28 de Julho a Áustria-Hungria cortou relações diplomáticas com a Sérvia e iniciou, um dia mais tarde, o bombardeamento de Belgrado. No mesmo dia, Nicolau II, imperador da Rússia, ordenou a mobilização geral contra a Alemanha e a Áustria, a que se seguiu a declaração de guerra de Guilherme II, no início de Agosto. 

A partir daí os acontecimentos sucederam-se a um ritmo avassalador: declaração de guerra da Alemanha à França e invasão da Bélgica; abandono da neutralidade da Grã-Bretanha e entrada do Império Britânico na guerra. 

Nos primeiros dias de Agosto a crise era incontrolável: cinco das principais potências europeias (Grã-Bretanha, França, Rússia, Áustria-Hungria e Alemanha) estavam já em guerra, apenas a Itália conseguira, ainda, manter-se neutral. Um conflito secundário, situado nos Balcãs, tinha-se transformado numa guerra europeia, cujas repercussões rapidamente se fizeram sentir no Mundo inteiro.

A sociedade portuguesa dividiu-se então em duas grandes correntes: intervencionistas e não-intervencionistas.

 

O grande desafio que a guerra colocou aos intervencionistas foi convencer um País pobre, com um exército mal preparado e equipado, e uma população maioritariamente analfabeta, que a entrada de Portugal na Guerra representava um pequeno sacrifício. Argumentavam que, com essa entrada, viria a possibilidade do País iniciar um processo de modernização económica e social, que o aproximaria da restante Europa desenvolvida. Este foi, de resto, o argumento usado repetidas vezes pelo Partido Democrático de Afonso Costa para justificar a necessidade de se enviar um exército para França.

Temendo uma investida alemã nas colónias portuguesas em África, a 21 de Agosto de 1914, o primeiro-ministro, Bernardino Machado, decretou a organização e o envio de dois destacamentos mistos (artilharia de montanha, cavalaria, infantaria e metralhadoras) com destino a Angola e Moçambique. No total foram mobilizados 1525 homens para Angola e 1477 para Moçambique, por esta altura o exército português tinha pouco mais de trinta e um mil efetivos. 

As primeiras tropas portuguesas chegaram a Moçamedes (Angola), e a Lourenço Marques (Moçambique), respectivamente a 1 e 16 de Outubro de 1914. A 25 de Agosto, em Moçambique dava-se o primeiro incidente na fronteira, com o ataque alemão ao posto de Maziúa. Em Dezembro desse ano dar-se-ia um novo incidente com tropas alemãs, desta vez em Angola; as tropas portuguesas sob comando de Alves Roçadas foram derrotadas em Naulila e forçadas a retirar para Humbe. 

De resto, esta proposta de divisão do império colonial português acabaria por causar alguma apreensão à França, que a entendeu como uma ameaça à sua colónia de Madagáscar. Importa sublinhar a importância e o significado desta medida, colocando-a num contexto mais lato que enquadrava a posição ambígua em que Portugal se encontrava desde o início das hostilidades. Por indicação da Grã-Bretanha, Portugal não se podia declarar nem neutral nem beligerante. Daí que ambas as expedições tenham sido organizadas pelo Ministério das Colónias, e não pelo Ministério da Guerra, porque desta ação não tinha resultado qualquer declaração de guerra à Alemanha ou aos seus aliados. Assim, as medidas tomadas por Portugal, com a aprovação da Grã-Bretanha, eram meras disposições preventivas de defesa colonial.

 

Portugal era um País muito dependente do exterior, especialmente do Reino Unido, em termos de transportes marítimos. Na sequência da declaração de Guerra da Inglaterra à Alemanha, cerca de 734 navios alemães e austríacos refugiaram-se em águas portuguesas (então neutras). Destes, cerca de setenta encontravam-se em portos portugueses. A diplomacia britânica vinha forçando a requisição destes navios desde 1915, queria que o governo português os colocasse ao serviço da Aliança.  

A 23 de Fevereiro de 1916, um destacamento da Armada portuguesa subiu a bordo dos navios alemães e austríacos que se encontravam no estuário do Tejo e, com honras militares, fez içar a bandeira portuguesa. Na sequência desta decisão do governo português, a 9 de Março de 1916, a Alemanha declarou guerra a Portugal.  

A 24 de Maio de 1916, o ministro da Guerra, Norton de Matos, publicou um decreto que ordenava o recenseamento militar a todos os cidadãos, sem exceção, com idades compreendidas entre os 20 e os 45 anos. Foram então mobilizados o C.E.P. (Corpo Expedicionário Português) e o C.A.P.I. (Corpo de Artilharia Pesada Independente).  

O primeiro contingente do C.E.P. partiu para a frente a 26 de Janeiro de 1917, desembarcando em Brest (França) a 7 de Fevereiro.  

Para saberes mais visita os seguintes sites: 1914-1918, Portugal 1914 e Google.com/CulturalInstitute

CRONOLOGIA:

 

FOTOS: 

1) «Os Portuguezes na Frente de Batalha – Abrigo d´um 75mm», Arnaldo Garcez, 1917 (Col. Particular)

2) Postal «Os Portuguezes na Frente de Batalha – Um dia calmo nas batarias», Arnaldo Garcez, 1917 (Col. Particular)

3) Postal «Saudações da Grã Bretanha ao seu aliado mais antigo», s/d (Col. Particular)

4) «Porque vamos para a Guerra», ‘Ilustração Portugueza’, série II, nº. 569, Lisboa, 15 de Janeiro de 1917, p. 48.

* Este artigo foi escrito no âmbito da parceria entre o Laboratório de História – do Instituto de História Contemporânea (IHC), da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa – e o Jornalíssimo, com coordenação de Ana Paula Pires, Luísa Metelo Seixas e Ricardo Castro. 

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