Um Século de Cabaret Voltaire, “Dada, dada dada dada”

Durante a I Guerra Mundial, o Cabaret fundado em Zurique,por Hugo Ball e Emmy Henning, foi um espaço de liberdade. Ali nasceu o movimento DADA.

Por Luisa Seixas (*) – Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Em 1914, com a eclosão da Primeira Grande Guerra, muitos intelectuais e artistas (como James Joyce e Einstein) encontraram na cidade de Zurique um refúgio e espaço para desenvolver as suas investigações. Entre trincheiras e explosões, talvez a necessidade de reunião, de discussão e de desconstrução se tornassem ainda mais importantes, num mundo em mudança radical.

Hugo Ball (1886-1927) e Emmy Henning (1885-1948), ambos refugiados alemães na Suíça e empregados de diversos estabelecimentos comerciais nocturnos, fundam o Cabaret Voltaire a 5 de dezembro de 1916, nas traseiras de uma taberna na ‘Spiegelgasse’. A referência a Voltaire, autor de ‘Cândido’, não é um acaso; reflecte a importância de inaugurar um espaço dedicado à prática artística em período de guerra. Um acto de resistência e de perseverança perante as atrocidades praticadas na Europa, um acto que rompesse com a sensibilidade burguesa da época.

Cabaret Voltaire foi um espaço de liberdade, de experimentação, onde diversos artistas se reuniam num ambiente fervoroso de criação. Na publicação de 1916, Porque fundei o Cabaret Voltaire, Ball reforça que este espaço tinha como objectivo “lembrar o mundo que existem pessoas com mentes independentes – para lá da guerra e do nacionalismo – que vivem para ideais diferentes” (1). 

Hugo Ball lança o repto aos artistas seus contemporâneos para que participem nas noites do Cabaret Voltaire, que albergava qualquer tipo de actuação e tertúlia. Tristan Tzara, Hans Arp, Marcel Janco e Richard Huelsenbeck, são alguns dos artistas que se juntaram a Ball no Cabaret, onde figuravam trabalhos de pintura e desenho de Hans Arp e Janco e águas fortes de Picasso.

 

Neste espaço surge o movimento DADA, cujo Manifesto é publicado e declamado em Julho de 1916 por Hugo Ball. Caracterizado pela sua atitude disruptiva e niilista, DADA pretende romper com qualquer consenso e cultura burguesa. Apesar da controvérsia em torno do nome DADA, diz-se que o poeta Richard Huelsenbeck terá encontrado a palavra ao acaso no dicionário, significando “cavalo de pau” em francês e cujo som evoca o balbuciar de uma criança enquanto não sabe ainda falar. Esta sugestão de absurdidade e esvaziamento de sentido estabelecia um bom ponto de partida para uma nova ideia de arte, que poderia ser tudo ou nada.

O movimento DADA é considerado um dos primeiros movimentos artísticos conceptuais, isto é, que dão primazia a um projecto de reflexão estética, à qual a forma e o meio se adaptam, não estando preso a nenhum suporte específico: as manifestações dadaístas poderiam configurar pintura, escultura, poesia, música, peças sonoras, performance ou dança; é essencialmente polimorfo, heterogéneo e aberto. “DADA encarna a revolta, em todos os planos” (1). É um movimento que encara a criação como uma manifestação de esperança, aceitando tanto a negação da arte como a sua apologia, sem negar a existência dos contrários. Recusa a ideia de génio e afirma que todos podem ser artistas e que tudo pode ser arte.

Após a partida de Hugo Ball para Berna, Tristan Tzara irá tomar a linha da frente do movimento, inaugurando a ‘galerie Dada’ e a revista de arte e literatura Dada, lançada em julho de 1917.

O fim do Dada em Zurique é marcado por um tumulto, reunindo cerca de 1000 espectadores, que, no fim de um extenso programa, passando por um discurso de apologia ao abstraccionismo e um concerto de música atonal, que tinham como objectivo provocar a participação da plateia. Em sintonia com o carácter disruptivo DADA, Tzara considerou ser esta a melhor forma de envolver o público, efectivamente implicado.

O movimento, de carácter eminentemente internacional, irá contaminar outras capitais do mundo, já que muitos dos artistas deixaram depois Zurique e se estabeleceram noutros países: Nova Iorque, Berlim, Genebra e Madrid são alguns dos locais onde DADA irá crescer e tomar novas formas.

Marcel Duchamp, Man Ray Kurt Schiwters e Picabia serão alguns dos artistas envolvidos no movimento, que irão desenvolver as suas correntes no plano internacional, fundando novas morfologias no plano artístico mundial.

O Cabaret Voltaire pode ser visitado ainda hoje, tendo sido mantido por vontade dos habitantes de Zurique, após uma fase de abandono até 2002. É um espaço cultural dedicado às artes visuais e performativas e ao estudo do movimento DADA e dos seus protagonistas.

(1) Hugo Ball, Prefácio à Edição Cabaret Voltaire, Zurique: Maio de 1916.
Disponível em: http://digital.lib.uiowa.edu/cdm/ref/collection/dada/id/28837

(2) Henri Béhar, Catherine Dufour, Dada, circuit total, Lausanne: l’Age d’Homme, 2005.

FOTOS:

Imagem 1 – Cabaret Voltaire, Spiegelgasse 1, Zurique, 1935, Colecção  Baugeschichtliches Archiv Zürich

Imagem 2 – Hugo Ball recita Karawane no Cabaret Voltaire, Zurique, 1916. Schweizerisches Literaturarchiv (SLA), Berna. Propriedade de Hugo Ball e Emmy Hennings.

(*) Este artigo foi escrito no âmbito da parceria entre o Laboratório de História do Instituto de História Contemporânea (IHC), da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa – e o Jornalíssimo, com coordenação de Ana Paula Pires, Luísa Metelo Seixas e Ricardo Castro.

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