«Vilas operárias» na Lisboa do final do século XIX

“De Lisboa sei dizer, por bastante ter visto já, que (…) gente pobre, que se emprega nos mais variados misteres, arrastam vida miserável em residências infectas. (…) [É] este calvário do operariado: a habitação.”

Por Ana Alcântara*

O excerto que abre este artigo é tirado do Boletim do Trabalho Industrial “Contribuição para o estudo das casas para Operários”, do Ministério das Obras Públicas Comércio e Indústria, de 1912 (1).

Na Lisboa do final do século XIX aconteceu um forte aumento demográfico provocado, em grande medida, pelo afluxo de mão-de-obra rural. Sabendo-se da incapacidade que a estrutura urbana tinha em albergar os novos efetivos populacionais e da quase ausência de resposta estatal, até aos anos 20 do século XX, à crise habitacional das «classes laboriosas», a busca de soluções residenciais foi da responsabilidade do próprio operariado, dos donos de fábricas e de outros proprietários.

Surgiram, deste modo, variadas iniciativas de construção e/ou adaptação de espaços para habitação dos/as «novos/as lisboetas» que chegavam à capital:

– ocupação fragmentária de edifícios devolutos – a sobreocupação de velhos edifícios, caves, conventos das extintas ordens religiosas e palácios desocupados, que eram repartidos em pequenos fogos; 

– adaptação de «pátios» – o aproveitamento de espaços livres nas partes de trás de ruas e logradouros de prédios, integrados na rede urbana preexistente;

– construção de «vilas» – conjuntos habitacionais para famílias das «classes laboriosas», pensados para albergarem muita gente em pouco espaço e, na sua grande maioria, de iniciativa de proprietários fabris.

A edificação das «vilas» operárias, para além de oferecer aos empregadores o lucro resultante do dinheiro do aluguer das casas, gerava uma situação de dependência entre habitação e local de trabalho. Ou seja, agrupava os/as trabalhadores/as de baixo rendimento salarial, ao mesmo tempo que aumentava a dependência destes/as face à fábrica, reduzindo, assim, a mobilidade no emprego e as reivindicações laborais.

Estas soluções que, na primeira metade do século XX, vão ser o tipo de habitação característica das populações operárias lisboetas, começam a surgir no final de Oitocentos. Na Graça, é construída a vila Souza (1889), sobre as ruínas do palácio dos condes de Vale de Reis, destruído pelo Terramoto. No Bairro Alto, surge a vila O Século, para alojamento dos empregados e operários desse jornal. No cabo Ruivo, outras duas empresas – a fábrica de adubos «Tinoca Lda.» e a «Sociedade Wiliam Graham & Cª» detentora da «Estamparia e Tinturaria do Braço de Prata» – construíram “correnteza[s] de casas, de plano uniforme” (2) para aluguer aos/às operários/as. Em Xabregas, são edificadas a vila Flamiano (1887/88) – para habitação dos/as operários da «Fábrica Samaritana»; a vila Pereira – da «Sociedade Santos Lima», proprietária dos armazéns e oficinas de tanoaria que ocupavam o rés-do-chão; e a proletária vila Dias (1888) – maior e mais revelador exemplo dos objetivos sociais e económicos que enformaram a construção das «vilas». Por construída ao longo de uma única rua, afastada dos principais eixos de circulação e enfaixada entre várias fábricas e o caminho-de-ferro, potenciava o afastamento desta comunidade face aos restantes núcleos habitacionais da zona e das outras classes sociais.

(*) Este artigo foi escrito no âmbito da parceria entre o Laboratório de História do Instituto de História Contemporânea (IHC), da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa – e o Jornalíssimo, com coordenação de Ana Paula Pires, Luísa Metelo Seixas, Ricardo Castro e Susana Domingues.

(1) Ministério das Obras Públicas Comércio e Indústria, “Contribuição para o estudo das casas para Operários”, Boletim do Trabalho Industrial, nº 66, Lisboa, IN, 1912, pp. 24-25

(2) Ministério das Obras Públicas Comércio e Indústria, “Contribuição para o estudo das casas para Operários”, Boletim do Trabalho Industrial, nº 66, Lisboa, IN, 1912, p.61

FOTOS

1) Vila Dias, 191-

Autor: Alberto Carlos Lima | ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA, NÚCLEO FOTOGRÁFICO

Código de referência completo: PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000883

2) Vila Sousa, 1898-1908

Autor: Machado & Souza | ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA, NÚCLEO FOTOGRÁFICO

Código de referência completo: PT/AMLSB/CMLSBAH / PCSP/003/FAN/003177

3) Pátio em Alfama, 191-  

Autor: Joshua Benoliel | ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA, NÚCLEO FOTOGRÁFICO

Código de referência completo: PT/AMLSB/CMLSBAH /PCSP/004/JBN/001188

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