Eles não querem que a praxe termine

Veem com bons olhos atividades científico-culturais, mas em complemento, não em substituição da praxe.

A pergunta que colocámos na semana passada foi esta: “Achas que as praxes devem continuar ou ser substituídas por iniciativas científico-culturais de receção aos novos estudantes, como sugeriu o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior? Porquê?”.

Os jovens que responderam ao desafio do Jornalíssimo manifestaram-se todos em defesa da praxe. Veem nela “a melhor maneira de receber os novos estudantes” (Henrique), “uma ótima maneira de toda a gente se conhecer” (Luís), uma prática “com muitos benefícios para a integração dos estudantes” (Ruben).

Cláudia realça o facto de os alunos “poderem escolher” se querem ou não participar, tal como Luís: “quem está na praxe quer lá estar, ninguém é obrigado”, observa. Ruben não concorda com a associação entre praxe e humilhação: “nunca me senti humilhado e, enquanto praxista, nunca senti que humilhei ninguém através das atividades que fazemos”.

Henrique recorda o “espírito de entreajuda” que se cria e as atividades (de praxe) que permitem aos estudantes “conhecer melhor a cidade onde vão morar”.

Os quatro transmitem a mesma ideia – a de que a praxe se pode conciliar com as atividades científico-culturais, que o Ministro Manuel Heitor referiu na Carta Aberta aos Portugueses. Não concordam, no entanto, com a ideia manifestada pelo governante de substituir a praxe por essas atividades.

Entre aqueles que quiseram responder, mas que não gravaram vídeos, há ainda outros argumentos:

PRAXE: O QUE É E O QUE NÃO É PERMITIDO

“A praxe pode comparar-se a uma religião”

Renata Teixeira, 19 anos, Braga

“Sou contra acabar com as praxes. A praxe pode comparar-se a uma religião, não por ser de culto, mas porque tem muitas tradições e costumes. Todos os anos há pessoas de preto a praxar que passaram por tudo o que os caloiros passam e não é humilhante. Basicamente, são atividades que podem dividir-se em teoria (a teoria da praxe), a parte dos costumes da academia, da casa (a faculdade) e a diversão, os jogos para se integrarem e conhecerem. Para alunos do 1º ano que já têm muitas cadeiras científicas ter mais atividades científicas é um bocado secante. E a praxe também é cultura, se acontece há tantos anos e não desaparece por algum motivo é”.

“Quebrar o gelo”

Diogo Fernandes,  19 anos, Lisboa

“Não estou de acordo que se acabe com a praxe. É passada a ideia de que a praxe é obrigatória, o que não é verdade. É voluntária. Nós, enquanto praxistas, perguntamos quem quer fazer parte desta tradição e as pessoas que não querem são respeitadas também. Aqueles que aceitam fazer parte da tradição têm de se sujeitar a respeitar as regras e as tradições, bem como a respeitar os mais velhos. Mas isso não vai contra a liberdade de cada um porque, a qualquer momento, o caloiro está livre de dizer que quer desistir da praxe. Além disso, temos em conta problemas de saúde dos caloiros. A praxe obriga os caloiros a conhecerem-se e a partilharem experiências que os aproximam, através de jogos, de dinâmicas, em que não fazem figuras ridículas nem se rebaixam, mas que servem para quebrar o gelo”.

“Há outras atividades para quem não adere á praxe”

Nuno Jesus, 23 anos, Funchal

“Eu acho que as pessoas se não quiserem aderir não aderem, mas não acho que deva terminar. Eu estudo Medicina no São João (Porto), no início aderi à praxe e depois deixei porque não gostava do ambiente, mas não me senti excluído por sair. Nem sequer fui impedido de subir ao carro (supostamente só pode subir quem está trajado). Além disso, existem muitas atividades extra-praxe a que se pode aderir, como os grupos de teatro ou de canto. Acho que está bem como está”.

“Podia haver atividades solidárias”

Miguel Macedo, 18 anos, Braga

“A praxe é uma boa forma para alunos que vêm de fora se integrarem, dá jeito para fazer amigos, para encontrar um grupo que depois nos apoia no estudo e na parte social. Nada impede que haja praxe e atividades científicas e culturais ao mesmo tempo. Acho que a praxe podia integrar, também, atividades de solidariedade”.

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