Será que pedira à IA que nos faça os trabalhos de casa compensa?

Com a IA fazes os trabalhos mais depressa. E aprenderás mais?

A inteligência artificial anda na ordem do dia. De tal modo que até já tem alcunha: para a maioria, passou simplesmente a ser “a IA”. A forma carinhosa como as duas letras ganham forma para muitos jovens é justificável. Um estudo recente (discussion paper, ainda não passou pelo processo de revisão por outros investigadores, necessário para publicação numa revista científica) encontrou resultados que parecem fazer dela uma excelente companheira para quem anda a estudar: trabalhos de casa feitos em menos tempo e melhores resultados.

Já tínhamos feito spoiler e anunciado um “mas”. Aqui está a adversativa: os resultados do estudo, que acompanhou quase 27 mil estudantes chineses durantes dois anos e meio, mostrou o reverso da moeda: quando, sem IA, os mesmo estudantes tiveram que provar o que realmente tinham aprendido… os resultados pioraram.

É esta a chamada de atenção deixada pelo artigo científico “The Generative AI Learning Penalty”, realizado por um investigador da Universidade de Estocolmo, David Strömberg, e dois da Universidade de Hong Kong, Victor Lei e Yanhui Wu, sobre os efeitos da utilização da IA na aprendizagem de estudantes do ensino básico e secundário.

Os investigadores acompanharam 26 811 estudantes, do 7.º ao 12.º ano, durante 30 meses, entre setembro de 2022 e junho de 2025.

Tinham, por isso, muita informação para analisar: os resultados dos trabalhos de casa, quanto tempo os estudantes demoravam a fazê-los, as notas obtidas em testes mensais realizados sem acesso a IA ou livros e, ainda, os resultados nos exames de acesso ao ensino secundário e à universidade.

O que aconteceu à medida que os estudantes começaram a recorrer à IA? Nos trabalhos de casa, as notas melhoraram 18% e o tempo necessário para os realizar diminuiu 30%. Já nos testes, ao fim de seis meses de utilização da IA, os resultados tinham piorado 20%. E o efeito apareceu também nos exames de acesso ao ensino secundário e à universidade.

Os investigadores verificaram que, em cerca de 80% dos utilizadores de IA, o comportamento era compatível com aquilo a que chamaram “homework outsourcing”. A expressão traduz a ideia de “subcontratar” à IA a realização dos trabalhos de casa. Foram estes os estudantes que passaram a conseguir resultados elevados em tempos excecionalmente curtos. Mas nem todos tiveram a mesma estratégia.

Entre os adolescentes que começaram a usar IA, mas continuaram a dedicar aos trabalhos aproximadamente o mesmo tempo que os colegas que não a utilizavam, a perda de aprendizagem foi muito pequena.

O estudo sugere, assim, que a maneira como se usa a IA faz diferença.

Imagina que querias descobrir cientificamente se utilizar IA para fazer os trabalhos de casa afeta a aprendizagem. Uma possibilidade seria reunir centenas de estudantes e dividi-los, ao acaso, em dois grupos semelhantes. Um utilizaria IA e o outro não. Passado algum tempo, compararias aquilo que aprenderam. Terias feito uma experiência.

Não foi isso que aconteceu neste estudo. Os investigadores não decidiram quem podia e quem não podia utilizar IA. Os estudantes começaram a fazê-lo por iniciativa própria e em momentos diferentes. Os cientistas aproveitaram essas diferenças para comparar o que acontecia aos resultados dos estudantes antes e depois de começarem a usar IA e confrontar essa evolução com a dos restantes alunos. É aquilo a que se chama um estudo quasi-experimental.

Num estudo experimental, os investigadores intervêm e conseguem controlar melhor as condições em que a experiência decorre. Num estudo quasi-experimental, procuram aproximar-se dessa comparação aproveitando situações que acontecem no mundo real e recorrendo a métodos estatísticos para tentar perceber o efeito daquilo que estão a estudar.

Retomando os resultados do estudo, os efeitos negativos foram maiores entre os estudantes mais novos e entre os rapazes. E nem os melhores alunos escaparam: as perdas foram também particularmente acentuadas entre estudantes com melhor desempenho escolar.

Houve também diferenças entre disciplinas. Os maiores efeitos apareceram nas Ciências Sociais, seguidas das áreas STEM — Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática — e das línguas.

Não tendo sido possível entrevistarmos os autores do estudo, fizemos a seguinte pregunta à IA, especificamente ao Chat GPT: “Como ´que os estudantes podem usar a IA para os ajudar a pensar, em vez de a usarem para que pense por eles?”. Resposta obtida: “Podem usá-la como alguém com quem estudar, não como alguém a quem entregar o trabalho. Pedir-lhe pistas em vez de respostas, explicações quando não percebem, perguntas para testarem o que sabem ou críticas às suas próprias respostas. Uma boa regra pode ser esta: se no fim conseguem explicar sozinhos aquilo que fizeram com a ajuda da IA, então a IA ajudou-os a aprender.”

Se tiveres interesse em explorar mais como pôr em prática a dica do Chat GPT, deixam oos-te três recursos:

Experience IA resources (Raspberry Pi Foundation e da Google DeepMind)
CRAFT – IA Literacy Resources (Standford University
Guia para a IA generativa na educação e na pesquisa (UNESCO)
AI Competency framework for students (UNESCO)


Imagem: https://easy-peasy.ai | Creative Commons

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