As dicas do Pedro Agricultor para Março

Março, mês de equinócio de primavera, quando os dias igualam as noites.

Por Pedro Rocha (pedroagricultorurbano@gmail.com)*

‘Em Março, esperam-se as rocas e sacham-se as hortas.’ Com este ditado temos a orientação para o que nos espera neste mês. Crescem os dias e as infestantes também! Ao mesmo tempo, o ditado ‘Em Março tanto durmo, como faço’ indica a chegada do equinócio de Primavera, altura em que os dias igualam as noites. Com mais luz e temperaturas mais altas, nem só as nossas culturas crescem… ‘Nasce erva em Março, ainda que lhe deem com um maço’.

MÃOS À HORTA

Todas as plantas necessitam de um determinado tempo de exposição à luz solar para um bom desenvolvimento. Com a maior disponibilidade de luz, é hora de acelerar as plantações no campo. Observa como, a partir de Março, o crescimento das plantas se torna mais rápido e vigoroso. Dá continuidade aos trabalhos de Fevereiro e mantém particular atenção ao crescimento das infestantes… Não são apenas as plantas que queremos produzir que aceleram o seu crescimento. Atua rápido logo que surjam infestantes, removendo-as, deixando assim mais nutrientes disponíveis para as culturas e reduzindo a competição por espaço e luz.

Procura colocar as plantas bem expostas ao sol e protegidas do vento. A partir de agora, terás também de estar atento à disponibilidade de água. Prepara-te para regar sempre que necessário. Água nunca pode faltar! Se não chover, verifica a humidade do solo.

Uma vez mais, o solo, a terra, o substrato (no caso de vasos ou camas de cultivo), deve ser a principal preocupação nos trabalhos da horta. Assegura que a terra está bem trabalhada, arejada e com matéria orgânica suficiente.

Se quiseres fazer análise ao solo, podes aceder ao serviço de análises laboratoriais da Direção Agrícola Regional da tua zona. Abre este PDF para saberes mais.

SEMENTEIRAS DA PRIMAVERA

Aproveita agora, que os dias crescem, para semear pimentos, malaguetas, meloas, pepinos, salsa e coentros. Podes utilizar caixas de ovos com algum substrato para efetuar as sementeiras e desenvolver as plantas antes de as transplantar para local definitivo.

Não te esqueças de fazer as sementeiras em lugar protegido e com boa exposição solar. É também muito importante manter a terra com humidade constante. As regas devem ser regulares, sem inundar para não se correr o risco de perder as sementes.

PLANTAR NO CAMPO

No campo, quintal ou cama de cultivo, começa a diversificar as culturas, para que possas usufruir de mais variedade no prato no fim da Primavera. Semeia ervilhas, nabiças, nabos, cenouras e rabanetes. Planta alfaces, cebolas, beterrabas e acelgas.
Fica atento à meteorologia e procura plantar ou semear nos períodos de tempo em que as temperaturas estejam mais amenas.

O ‘FAMOSO’ DE MARÇO: A ALFACE

Bilhete de Identidade
Família: ‘Asteraceae’
Género: ‘Lactuca’
Espécie: ‘Lactuca sativa L.’

Origem e história
A origem da alface está algures entre o Próximo Oriente e a região mediterrânica, onde o seu cultivo começou, pelo menos, há uns 4500 anos. Foi cultivada pelo óleo que se extrai das sementes, mas na época do Império Romano já as suas folhas eram usadas na alimentação. Ao contrário de muitas outras espécies de hortícolas, a alface foi levada ao mundo pelos europeus, tendo chegado à China pelo século VII e às Américas no século XV.

A Cultura da Alface
Pelas suas exigências climáticas, a alface cultiva-se em zonas temperadas. Por se tratar de uma espécie com um ciclo cultural relativamente curto, entre 8 a 12 semanas, podemos fazer várias culturas no mesmo ano, cultivando da Primavera até ao Outono. Existem, contudo, variedades adaptadas às diferentes épocas do ano e aos diferentes climas. Por isso, aconselho a que perguntem na vossa casa agrícola se a variedade é adequada à época.
Quando a temperatura é demasiado elevada pode ocorrer espigamento. Isto é, a alface pode entrar em estado de floração. A alface é também uma cultura sensível à acidez, sendo que o ‘pH’ ótimo situa-se entre os 6,5 e 7,2. Gosta de solos bem drenados e ricos em matéria orgânica.
Entre cada pé deves reservar um intervalo de 30 centímetros. Se pretendes ainda tirar um melhor rendimento do espaço ocupado, consocia (cultivo associado) com rabanetes, cebola ou beterraba.

OS LEITORES PERGUNTARAM

As questões selecionadas durante o mês de Fevereiro foram as seguintes:

Como afastar os caracóis da Horta?
Filipa Almeida, Porto

O caracol, tal como a lesma, é um molusco gastrópode terrestre, de hábitos noturnos, que anda e come mais do que possamos imaginar, podendo causar sérios estragos na horta. O seu controlo não é fácil, sobretudo depois dos seus predadores naturais, como sapos e ouriços, terem desaparecido dos nossos quintais. Há, por isso, que ser mais inteligente que o caracol e conhecer os seus hábitos.
O caracol alimenta-se à noite e esconde-se de dia, por baixo de pedras, entre muros ou entre as folhas. Como os afastar então?!
A solução não passa por afastá-los, mas sim por controlar a sua população de forma a não provocar estragos significativos. Uma boa dica é colocares estrategicamente esconderijos para caracóis. Experimenta deixar vários baldes, vasos ou latas antigas virados ao contrário pelo quintal e vais ver que, pela manhã, se transformam em autênticos dormitórios de caracóis. Nessa altura, podes removê-los e fazer deles o que melhor entenderes. Até há quem os ache um belo petisco, depois de irem ao tacho!

Quero montar uma horta na escola, por onde devo começar?
Bárbara Monteiro, Porto

Em primeiro lugar, deves escolher o local mais adequado, com boa exposição solar, preferencialmente orientado a sul e protegido do vento. O acesso fácil a água para regar é fundamental e os caminhos para as crianças circularem devem ser largos (aconselho cerca de um metro).
Convém preparar um orçamento inicial para aquisição de todos os utensílios necessários, como composto, sementes, plantas, entre outros fatores de produção.
Muito importante será, ainda, o estabelecimento de um cronograma com o plano das atividades educativas a realizar ao longo do ano letivo e ter, pelo menos, uma pessoa que articule todas as atividades na horta com a escola.
Por fim, quando iniciares o planeamento da horta deves (idealmente) fazer uma análise ao solo, para determinar as necessidades de correção (essencialmente do ‘pH’, com adição de calcário e matéria orgânica, com aplicação de estrume ou composto).
Depois de fazeres uma boa correção de solo, faz um planeamento das culturas para cada época do ano. Considera ainda a possibilidade de ter um acompanhamento técnico para que o sucesso das plantações seja garantido e assim manteres a escola, pais, alunos e professores motivados.

Tens dúvidas?
Podes escrever ao Pedro Agricultor para o endereço eletrónico que está no início deste artigo, indicando o nome e o local de onde escreves. Todos os meses, ele vai responder a duas ou três questões colocadas pelos leitores.

Se quiseres ouvir a versão radiofónica de “As Dicas do Pedro Agricultor para Março”, ouve esta noite (2 de março) o programa “O Som é a Enxada”, da Rádio Manobras, às 22 horas, ou visita o blogue do programa, onde encontras todas as emissões passadas.

(*) Pedro Rocha nasceu em Espinho em 1976 e cresceu entre as praias da Aguda e os campos de Arcozelo. Em 2000 concluiu o Curso de Ciências do Ambiente e Poluição na Universidade de ‘South Wales’, no Reino Unido e, no mesmo ano, iniciou a atividade profissional na consultora alemã ‘Hydroplan GmbH’, sendo consultor no projeto de desenvolvimento rural em Cabo Verde. Em 2005 começou o projeto de agricultura biológica Raízes, do qual ainda é sócio. Desde 2014 que se dedica à prestação serviços como agricultor urbano e consultor, promovendo novos conceitos de relação entre consumidores e produtor. Podes saber mais sobre a colaboração de Pedro com o JORNALÍSSIMO aqui.

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