Crónica: O dia em que fui “Uber” de um gafanhoto
Hoje dei boleia a uma saltitão… Não sei há quantos anos não via um e nem me lembro nunca de ter visto um tão bonito como este! Pela cor, pela textura. Talvez pela proximidade! Parecia um origami – frágil, com umas antenas de espessura milimétrica e uns olhos amarelos que nem o tamanho de uma missanga tinham.
Estava pousado no espelho retrovisor lateral do meu carro. Mesmo ao meu lado. Dei por ele quando estava a sair da garagem do largo ao pé do Hospital de Santo António, no Porto, onde está a estátua de Abel Salazar. Fiquei fascinada! Distraiu-me. Confesso que fiz algo que não devia: peguei no telemóvel para lhe tirar fotos. Tinha que ser, afinal estava perante um saltitão “posante”. Quantas vezes já tiveram o privilégio de ter um saltitão a posar para vocês?!
Achei que ele ia saltar de um momento para o outro e ficar no meio da cidade… Apesar de lhe ter dito que, se se mantivesse ali até ao fim da viagem, o deixaria num dos espaços naturais mais bonitos do centro do Porto, para onde ia. Passámos a Rua D. Manuel II e ele na maior em cima do espelho. Chegámos à Praça da Galiza e ele parecia estar em casa. Subimos o início do Campo Alegre e ficámos parados nos semáforos, por cima do viaduto, no cruzamento da Rua do Campo Alegre com a da Faculdade de Letras, onde estão aqueles canteiros floridos bem bonitos. “É aqui que ele salta”, pensei. Não saltou. O momento mais delicado foi quando os pneus passaram por uma tampa levantada… “É agora!” Não foi. Apenas encolheu as patas, como se se sentasse, mas manteve-se firme no seu lugar. Entrei no parque verde colado ao Jardim Botânico do Porto, onde fica parte da Faculdade de Ciências e a Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação. Estacionei o carro. Abri e fechei a porta, movimentando inevitavelmente o espelho “dele”… Nem assim arredou pé.
Gostei tanto de conduzir aquele passageiro que quis tirar uma foto com ele. Bem, podia ser ela (agora que penso, para mim os gafanhotos são como anjos, não têm sexo). Tirei-nos uma selfie e ele parecia vaidoso. Preparava-me para o pôr entre as mâos e levá-lo para o sítio do Parque onde achei que ele ficaria melhor entregue… Foi aí que ele me mostrou o sinal vermelho! Numa fração de segundo, saltou para uma das folhas da árvore em cima do carro. O meu “oh!” inicial deu lugar a um “faz sentido”… Ele queria um “Uber” que o tirasse do meio da cidade, não alguém que o conduzisse depois de estar no meio da natureza. Essa conhece-a ele melhor que eu! Quem sabe se não vai ainda até ao sítio onde eu o imaginava, mas pelo próprio pé, pata…
Se o virem por aí, mandem notícias! Ia gostar de o rever!
Joana Fillol
