“Precisamos de histórias para levar a nossa vida para a frente”

Peter Frühmann foi designer e publicitário, mas foi nas histórias –as que contamos todos os dias, a nós e aos outros – que se realizou.  São uma espécie de jogo, diz, onde a verdade nem é o mais importante.

Quase não damos por isso, mas passamos a vida a contar e a ouvir histórias. E não estamos a falar de ficção. Estamos a falar das histórias da nossa vida – as que contamos a nós próprios e as que contamos aos outros. Há muito para dizer sobre o ‘storytelling’. Entrevistámos um especialista nesta área, Peter Frühmann, que nos diz que contar ou ouvir uma história é como um jogar um jogo, uma “brincadeira cognitiva”, que não jogamos sozinhos. Este holandês foi designer e teve uma agência de publicidade. Mas cansou-se. Cansou-se da comunicação unilateral, de ser apenas emissor de mensagens. Disse-nos ter encontrado no ‘storytelling’ uma forma de dialogar, de se conectar com os outros. Hoje, as histórias são a sua vida. Não só porque as conta como ninguém, mas também porque a sua profissão é ajudar as pessoas a tirarem partido do poder das histórias. Sabias que as histórias podem ter um efeito terapêutico? E que são excelentes para reter o que aprendemos? O melhor mesmo, é leres o que ele diz. Em discurso direto.

JORNALÍSSIMO – As pessoas têm necessidade de contar histórias?
PETER FRÜHMANN – Sim, é uma necessidade que todos nós temos. Precisamos de contar histórias a nós próprios, sobre a nossa vida pessoal, mas também precisamos de contar histórias aos outros – sobre nós, sobre o nosso trabalho, sobre qualquer outro aspeto da nossa vida. Todos precisamos de histórias para levar a nossa vida para a frente, para ter o nosso mundo equilibrado de alguma maneira. Pensa, por exemplo, nas coisas que não somos capazes de compreender. Se reparares, tentamos sempre dar-lhes sentido através de uma história.

J – As histórias são, portanto, uma forma de compreendermos o mundo, de nos compreendermos a nós próprios?
PF – Nós, humanos, precisamos de algo que nos faça sentido. Por exemplo, a morte tem de ter um significado para nós. Acho que a função mais antiga das histórias é essa: entender por que é que as coisas acontecem, dar resposta àquelas velhas questões – Por que nascemos? Por que morremos? De onde vimos? Para onde vamos?
Além disso, a quantidade de informação que temos à nossa volta seria muito confusa se a olhássemos isoladamente. Necessitamos de uma estrutura para assimilar toda a informação que nos rodeia e as histórias dão-nos essa estrutura de que precisamos.

J – Voltando a essa ideia de que precisamos de histórias para entender a vida, o que nos rodeia. Nessas histórias, a verdade nem sempre é o mais importante. Ou é?
PF – A verdade é sempre a verdade da pessoa que está a contar a história. Não é a verdade absoluta, a verdade é sempre duvidosa. A verdade não é o mais importante, a menos que estejamos a mentir, a inventar algo intencionalmente, para enganar os outros.
Quando estamos a falar da nossa vida, de uma experiência que tivemos, da nossa juventude por exemplo, podemos não estar a dizer a verdade, mas estamos a contar uma história real, a nossa perspetiva da realidade.
Real é algo diferente de verdadeiro…

J – Pode explicar melhor?
PF – Aquilo que é real para ti, para mim, pode não ser exatamente verdadeiro. Por exemplo, nós nem sempre dizemos a verdade acerca do nosso passado, o que dizemos é aquilo que julgamos que foi real ou verdadeiro. É real porque foi a forma como nós experimentámos aquele momento.

J – E todos vivenciamos sempre as coisas de maneira diferente…
PF – Quando várias pessoas presenciam um determinado acontecimento, é fascinante ver que, depois, quando falam sobre ele, surgem histórias muito diferentes. O evento em causa é o mesmo, mas as perspetivas sobre o que aconteceu são muito diferentes.
Isso mostra que os mesmos eventos podem ser vivenciados de várias formas por várias pessoas.
Além disso, podemos usar o mesmo evento com propósitos muito diferentes. Podemos, segundo a ocasião, falar de um mesmo evento com pequenas diferenças, consoante seja para explicarmos alguma coisa a alguém, ou para sublinharmos uma virtude nossa… E se isso é verdade ou não, não é importante. Nesse momento, é uma espécie de realidade que queremos transmitir a outra pessoa, para explicarmos alguma coisa sobre nós, para impressionarmos o outro…

J – E as histórias também nos podem ajudar a aprender? Os estudantes podem tirar partido das histórias?
PF – Claro que sim. Basta pensar que todos nós, independentemente da idade que tenhamos, somos capazes de pensar em professores que eram excelentes ‘storytellers’. Aqueles professores que gostávamos mesmo de ouvir porque nos explicavam a matéria de forma engraçada, entusiástica, cativante, indo buscar uma história, servindo-se de uma metáfora para nos explicar alguma coisa, algum conceito.

J – Ajudava a perceber, mas também a memorizar, a reter essa aprendizagem…
PF – As histórias, as metáforas, são muito úteis também para nos recordarmos do que aprendemos. Conseguimos recordar melhor uma história do que um ‘power point’, por exemplo.
Está provado cientificamente que uma história é até vinte vezes mais eficaz para ajudar a recordar qualquer coisa do que uma apresentação de ‘power point’.
No ano passado, lancei um desafio a professores universitários para incentivarem os estudantes a escrever uma tese com a estrutura de uma história. É possível adaptar uma tese à estrutura de uma história. Pode-se começar com o enquadramento, o cenário, mostrar a situação, o estado do conhecimento atual, depois apresentar as nossas ideias e a solução, a proposta de transformação. Uma tese em formato de história seria muito mais interessante de ler e também mais fácil de entender. Afinal, foi graças a histórias, a metáforas, a poemas, que o conhecimento sobreviveu durante séculos, na tradição oral.

J – E as histórias também podem ajudar as pessoas a sobreviver? O que é isso de “terapia narrativa”?! As histórias podem curar?!
PF – Curar não será bem o termo. As histórias, o ‘storytelling’ pode ter um efeito terapêutico quando se encontra um bom terapeuta narrativo, alguém com uma grande capacidade de ouvir e de fazer perguntas poderosas.

J – “Terapeuta narrativo”?!
PF – Sim. É alguém que ajuda as pessoas a contar, a aperceberem-se da sua história. Ajuda-as a ver se essa história as está a impedir de algo, se está a constituir um bloqueio. E, se assim for, vai ajudá-las a construir outra história com a qual lidem melhor e que as permita viver melhor do que viviam com a história anterior, que era uma crença limitadora, que impedia a autoconfiança.
Imagina, por exemplo, uma coisa em que pensas sempre que não és bem-sucedido. Sempre que isso te acontecer vais pensar nessa crença, achar que é assim porque não és bom nisso, porque o mundo não gosta de ti… Em vez disso, podes tentar encontrar nesse mesmo aspeto, nessa mesma história uma qualidade, destacar uma virtude tua. Assim, quando estiveres de novo perante a situação, terás pelo menos outra história possível, que te vai ajudar a esquecer ou a limitar o poder da tua crença anterior.
É uma forma muito simples para tentar explicar o que a terapia narrativa pode fazer, com a ajuda de um bom terapeuta narrativo.

J – Há pouco falava na capacidade de ouvir… Um bom ‘storyteller’ é sempre um bom ‘storylistener’?
PF – Um bom ‘storyteller’ deve ser sempre um bom ‘storylistener’, porque o ‘storytelling’ é, de certa forma, sempre uma forma de diálogo. Um ‘storyrteller’ pode ouvir a audiência mesmo quando ela não está a dizer nada. Pode ouvi-la com os olhos, estando atento às reações das pessoas. A reação não-verbal da audiência configura sempre um diálogo. Se quem está a contar a história vê que a audiência está a ficar aborrecida pode introduzir um fator surpresa para captar a atenção outra vez. Pode, também, interpelar quem o ouve: ‘Estão a seguir-me?’, ‘O que digo faz-vos sentido?’.

J – Quando pensamos em ‘storytelling’ temos tendência a pensar em ficção, mas não tem de ser exatamente assim, pois não?
PF – A ficção é uma parte do ‘storytelling’. Nós inventámos a ficção porque, tal como necessitamos das nossas histórias pessoais, também necessitamos da ficção, também nos entusiasmamos com ela, porque consegue surpreender-nos.
Pensa em alguém que consegue imaginar reviravoltas loucas no enredo de uma história. Quando ouvimos as suas histórias, queremos tentar compreender, então vamos tentar adaptar-nos a essa história e pensar no que vai acontecer a seguir.
É como estar a jogar um jogo, é uma brincadeira cognitiva. E não brincamos sozinhos. O autor, o escritor está, também, a jogar, a brincar connosco. Na realidade, ele convida-nos para este jogo, que é ótimo para o cérebro – ativa-o, estimula-o e é por isso que há investigadores que dizem que as histórias de ficção são um excelente meio para desenvolver o pensamento, para aprendermos a adaptar-nos com maior facilidade a determinadas situações e isso é uma capacidade de sobrevivência.

J – É por isso que se contam tantas histórias às crianças?
PF – As histórias são uma ferramenta muito útil na educação, pelo que já falei atrás, mas também porque as histórias permitem aos mais novos desenvolver capacidades úteis para a vida em sociedade, permitem-lhes antecipar situações com as quais se vão deparar mais tarde e assim aprender a lidar melhor com elas. E depois estimulam a imaginação, ajudam a enriquecer o vocabulário, a desenvolver o pensamento crítico. Contar uma história permite olhá-la de fora e analisá-la. Ver o que está bem e o que está mal, criticar, levantar questões. E isto não se desenvolve só quando somos pequenos, aprendemos com as histórias ao longo da vida.

J – As pessoas que procuram os seus workshops de ‘storytelling’ não são pessoas que estão interessadas em tornar-se escritores, ou pessoas que querem escrever histórias de ficção?
PF – Não, não, de todo (risos)! Eu não dou workshops de escrita, apesar de ser escritor também. As pessoas que frequentam os meus workshops querem aprender a usar as histórias, por exemplo na educação, para ensinarem melhor, mas também em empresas, para facilitar o contacto e a aproximação entre os trabalhadores ou com os clientes.

J – Olhando para a História, quais são, a seu ver, as figuras que souberam tirar mais proveito do ‘storytelling’?
PF – Há duas pessoas de quem me lembro logo: uma é o Imperador Marco Aurélio, a outra é Michel de Montaigne.
Marco Aurélio escreveu os seus pensamentos sobre a vida. Ele tinha uma espécie de diário pessoal, escrevia-o todos os dias. Queria ser um bom imperador, e um bom ser humano também, e usava a escrita como uma forma de se ver ao espelho, de refletir se ainda era boa pessoa, de se perguntar a si mesmo: ‘Sou ainda o homem que queria ser?’, ‘O que é que eu fiz de bom hoje?’, ‘O que é que eu fiz de errado hoje?’. Esses diários foram preservados e são muito interessantes, ele era uma pessoa muito séria, exercia a sua profissão com muita seriedade.
Mas, quando falamos de histórias pessoais, de refletir sobre nós próprios e sobre o mundo à nossa volta, há um nome que, para mim, é incontornável: Michel de Montaigne. Recomendo a leitura dos seus ‘Ensaios’ a qualquer jovem, a todos os que se estão a tornar adultos. Recomendo mesmo!
Às vezes, a escrita é séria, mas outras vezes tem imenso humor. Ele vê tudo em perspetiva, tanto a si próprio como ao mundo que o rodeia. É um livro grosso mas temos toda a vida para o ler (risos).

J – Essa é uma visão do uso pessoal do ‘storytelling’, mas também houve na História pessoas que se serviram das histórias para convencer os outros. Para o mal, por exemplo, estou a pensar em Hitler…
PF – Hitler foi um bom ‘storyteller’, no sentido de convencer as pessoas. Ele sabia, por exemplo, o poder da repetição numa história. Repetir a mesma coisa, uma e outra vez, faz as pessoas pensar que essas coisas são, de certa maneira, verdade. E Hitler também era muito bom a relacionar eventos de modo a chegar a uma determinada conclusão, a conclusão que ele queria que as pessoas tirassem. Além disso, Goebbels (ministro da propaganda de Hitler) era também um excelente escritor de discursos, um estratega, que sabia usar os elementos que fazem uma boa história.
Olhando para o lado bom da política, acho que Winston Churchill (Primeiro-Ministro do Reino Unido durante a II Guerra Mundial) foi um bom ‘storyteller’.

J – Quais são esses ingredientes fundamentais, que fazem de uma história uma boa história?
PF – Não é só a estrutura, é também a forma como se “tempera” a história, as “especiarias” que se acrescentam. É fundamental que haja eventos inesperados, por exemplo. As emoções que os protagonistas das histórias vivem são, também, muito importantes. É através dessas emoções que quem ouve/lê vai criar empatia com as personagens, colocar-se na pela delas, fazer com que queira seguir os seus passos ao longo da história. Mas também podíamos falar das metáforas, que estimulam a imaginação ou da capacidade de introduzir histórias dentro da história principal, tornando-a mais interessante, como acontece com Xerazade em “As mil e uma noites”.
E o suspense. O suspense é outro elemento que podemos trabalhar para tornar uma história interessante… Será que o protagonista vai conseguir? Será que ele vai morrer? Às vezes ele quase morre e isso envolve ainda mais o recetor da história.

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