História 08 novembro 2017
A indústria do frio é essencial | Foto: Erich Ferdinand/Creative Commons

Quanto tempo terias perdido todos os dias nas compras? O que terias feito ao pacote de leite depois de o usares ao pequeno-almoço? Como terias levado água fresca para a praia?

Por Susana Domingues* – Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

A indústria do frio é essencial para que todos possamos ter alimentos de qualidade, variados, a preços mais baixos e sem termos de nos preocupar com a altura do ano. E isso é conseguido porque, desde que são produzidos até que chegam a nós, as temperaturas dos alimentos mantêm-se sempre constantes, ou seja, a cadeia de frio nunca é interrompida, como podes ver na seguinte imagem.

 

Mas nem sempre foi assim. Em 1970, no Algarve, não havia muitas casas com frigoríficos, lojas com arcas frigoríficas ou camiões frigoríficos suficientes para servir quem lá estava. E no resto do país a situação não era muito diferente.

Ir de férias para o Algarve no verão podia significar ter de ficar à espera muito tempo por produtos frescos.
Preocupada com este problema, em 1975, a Direcção-Geral de Turismo convocou várias entidades públicas e privadas para resolvê-lo. Juntamente com a Direção Geral do Comércio Interno, a Junta Nacional dos Produtos Pecuários , a Junta Nacional das Frutas e a Empresa Pão de Açúcar, analisou a hipótese de construir no Algarve um “cash and carry”  – um sistema comercial de livre serviço proporcionado por um grossista para abastecimento pelos retalhistas.

Rapidamente concluíram que o projeto em causa não resolveria o problema. Decidiram então estudar e definir um conjunto de infraestruturas frigoríficas para “(…) resolver de uma vez e para sempre, os estrangulamentos no abastecimento em produtos perecíveis.”  A operacionalização do plano passava por envolver todos os interessados. “(…) consumidores individuais, retalhistas, consumidores coletivos, unidades hoteleiras, consumo industrial, etc.”

Definiu-se uma estratégia: primeiro haveria que fazer um diagnóstico das instalações frigoríficas existentes (na altura não se conhecia nem o número, tipo, capacidade, dimensão ou géneros que armazenavam), depois era necessário construir ou reestruturar as seguintes instalações (sendo que nem todas incluíam refrigeração ou congelação): central fruteira, instalações de apoio à pesca, portos de pesca, matadouros e casas de matança. Por outro lado, este grupo de trabalho faria um estudo sobre quem vivia no Algarve. Seriam identificados os agregados populacionais, as unidades de consumo e apresentadas as soluções necessárias.

 

O Plano Frigorifico do Algarve (PFA) foi cuidadosamente pensado. Todas as estruturas planeadas estariam adequadas a cada tipo de alimento e às respetivas necessidades da população.

Repara como era importante este projeto: através dele, seria feito um teste para mais tarde se poder construir uma Rede Frigorífica Nacional.

O PFA deveria ser o primeiro projeto da Rede. Por isso, é discutido com o adjunto do Ministro do Comércio e Turismo, Dr. António Barreto (1942-)  o tipo de instalações a construir, a ordem e a localização.

Em Julho de 1978, já estava tudo pronto para começar a construção. Do PFA faziam parte: nove volumes (edifícios), uma caracterização do Algarve, vários estudos por produtos (ou seja, uma caracterização para os legumes, as hortaliças e as frutas; outra para a carne e os produtos relacionados com ela; e ainda uma outra para a pesca) e um estudo sobre os aspetos técnicos e económicos dos tais nove volumes e como é que estes deveriam ser construídos e, depois, geridos.

Estes volumes estavam distribuídos do Barlavento ao Sotavento e organizar-se-iam em: Complexo Alimentar de Faro, Central Fruteira de Faro (Cacial), Centro de Abate de Aves (sem frigoríficos), Central Hortofrutícolas (Silves). O primeiro, e mais complexo de todos, era composto por: uma Central Hortícola, um Matadouro, um Mercado Abastecedor Polivalente, um Entreposto Frigorífico Polivalente, Centro de Classificação de Ovos (sem frigoríficos). De resto, todas as instalações foram caracterizadas segundo o tipo de frio – arrefecimento, pré-refrigeração, refrigerados congelados, ultracongelados; o número; a capacidade de armazenagem por dia, em toneladas; a dimensão em metros cúbicos e a localização. As instalações estariam ou junto a zonas de produção ou perto de estradas e comboios para que conseguissem distribuir os produtos ali guardados mais depressa.

Em resumo, o PFA fez parte da estratégia do Estado. Não foi entregue a nenhuma cadeia de supermercados embora a ideia tivesse partido do grupo Pão de Açúcar. Era um projeto cheio de pormenores e feito com muito entusiasmo (não te esqueças que Portugal vivia, nesta altura, os primeiros anos de a democracia depois de mais de 40 de ditadura). A ideia foi ajudar ao desenvolvimento daquela região e por isso, a alimentação era essencial. Contudo, e pelo que nós investigámos, depois de 1978 o PFA não voltou a fazer parte dos planos de Governo.

Hoje, se passares pelo Algarve e tentares perceber como é a rede de frio para abastecer a região vais encontrar, por certo, construções completamente diferentes do que falámos aqui. Mas, ao abrires um frigorífico, talvez te lembres do que aqui te contámos: há pouco mais de 40 anos um gesto que hoje nos parece tão banal ainda não fazia parte do quotidiano dos portugueses.

(*) Este artigo foi escrito no âmbito da parceria entre o Laboratório de História do Instituto de História Contemporânea (IHC), da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa - e o Jornalíssimo, com coordenação de Ana Paula Pires, Luísa Metelo Seixas e Ricardo Castro.

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Escrito por Jornalissimo
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