Cruzar-se com um programa de iniciação à história contemporânea determinou o percurso de Catarina Letria | Foto: Sann Gusmão

“Aprendi como se chega à narrativa que nos manuais de História nos é apresentada de forma linear”

Catarina Letria assina o primeiro de uma série de artigos em que jovens adultos contam a sua experiência em diferentes programas de iniciação à investigação histórica.

Por Catarina Letria (*)

Quando me convidaram a partilhar a minha experiência com o Laboratório de História (**), fui aos meus papéis e deparei-me com este convite – o convite para as duas sessões de apresentação dos trabalhos finais do Laboratório (ver imagem abaixo). Foi na Biblioteca Velha do Liceu Camões, 2015, poucos dias antes do fim do 12º ano. Estávamos nervosos por ir apresentar os nossos trabalhos aos tutores do IHC, à Professora Fernanda Rollo, às nossas famílias e outros professores do Camões. Mas estávamos também contentes, um tanto eufóricos, por termos conseguido terminar uma das tarefas (por mim falo) mais exigentes de todo o nosso Secundário.

Exigente porque nos levou a definir um tema sobre o qual quiséssemos saber mais, a formular problemáticas, pesquisar bibliografia e fontes e saber distingui-las, a fazer entrevistas, ler muito e escrever um trabalho em moldes académicos. Tudo isto em paralelo com as semanais quatro horas e meia de História A dadas pela Professora Cecília Cunha, e um exame nacional a aproximar-se em junho. Sabíamos que ao exame não escaparíamos, mas sabíamos também que com o trabalho do Laboratório aprendíamos muito mais do que os colegas de outras turmas que não estavam a ter a mesma experiência que nós.

Foto: D.R.

Aprendi muito sobre o tema que pesquisei, as ocupações de terras no Cercal do Alentejo durante o PREC, em equipa com a Nazaré Silva, da minha turma, sob a orientação do Filipe Guimarães da Silva. Mas aprendi sobretudo – e tive essa consciência na altura – como se forma o conhecimento histórico; isto é, como se chega à narrativa que nos manuais de História do Secundário nos é apresentada de forma linear, como “a verdade” do passado, e nunca na sua natureza lacunar de que falava Paul Veyne. Ler autores diferentes com interpretações diferentes dos mesmos acontecimentos, entrevistar pessoas que participaram desses acontecimentos e sobre eles pensam coisas muito diferentes – tudo isso me levou a perceber que “a verdade” do passado é na verdade uma ficção, e que a História é antes um confronto de narrativas. Ter a experiência oficinal de “meter a mão na massa” pesou muito na hora de escolher que curso seguir na faculdade. E foi assim que me decidi por História na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Quando lá cheguei, percebi que, graças à experiência com o Laboratório, já vinha com um certo método e muitas dúvidas formuladas na minha cabeça sobre a História como disciplina e o trabalho dos historiadores – sobre muitas delas continuo a perguntar-me.

Durante a licenciatura, fiz um semestre Erasmus em Paris, na Universidade Paris 7 Diderot. Acho que foi essa a primeira vez que, graças às aulas e ao trabalho de uma professora, me apercebi da dimensão criativa da História que durante o início do curso não tinha ainda descoberto, afogada em cadeiras de cronologias que não me apaixonavam. Fui ficando mais interessada à medida que as cadeiras tocavam períodos mais recentes e questões mais teóricas. Incomodava-me, porém, que a maioria das abordagens com que contactávamos no curso fosse apenas centrada na academia, e pouco preocupada em divulgar a História além dos limites desta.

Foi essa preocupação que me levou a candidatar a um mestrado que até então não existia, e do qual, enquanto bolseira, vim a fazer parte da primeira turma, composta por 11 alunos de 11 países diferentes. Trata-se do mestrado Erasmus Mundus em “History in the Public Sphere”, resultado de um consórcio de quatro universidades à volta do mundo: Central European University, em Budapeste e Viena; Tokyo University of Foreign Studies, no Japão; Universidade de Florença e Universidade Nova de Lisboa. Como alunos, frequentámos cada uma das universidades, mudando de país, e acabámos em Tóquio com a defesa da tese perante um júri composto por professores das quatro universidades. Nesse mestrado, pude encontrar resposta às preocupações que me haviam surgido na licenciatura, e contactar com colegas que, também eles, eram movidos pelas mesmas questões. Mais do que estudar o passado, fomos levados a focar-nos na forma como o passado é recebido no presente, e de que forma pode ser apropriado de forma a legitimar regimes políticos ou questões da atualidade. Abordámos também questões relacionadas com a representação da história, museus e arquivos. A minha tese procurou estudar de que forma a independência de Moçambique em 1975 foi retratada na RTP, e questionar as relações entre os media e a História. Recorrendo a fontes audiovisuais, sobretudo, mas também escritas e orais, interessou-me tocar o tema da mediatização da História.

Olhando este percurso retrospetivamente, que ainda não sei onde acabará, não deixa de ser curioso ver como o Laboratório de História esteve lá desde o início.

Foto de abertura: Sann Gusmão

(*) Este artigo foi escrito no âmbito da parceria entre o Laboratório de História, Territórios e Comunidades – CFE NOVA FCSH (https://htc.fcsh.unl.pt) e o Jornalíssimo, com coordenação de Maria Fernanda Rollo e apoio de Susana Domingues.

(**) O Laboratório de História, Territórios e Comunidades (LHTC) é um projeto colaborativo do HTC com diferentes instituições da sociedade civil, desde escolas a bibliotecas, passando por museus. Deste projeto fazem parte diferentes programas, entre os quais o Programa de Iniciação à Investigação Histórica que procura transmitir aos alunos do ensino secundária ferramentas e metodologias de investigação em História. Os/as alunos/as de algumas turmas são desafiados a trabalharem, em grupo, ao longo de um ano letivo, um tema relacionado com a história do século XX. Para desenvolverem essa pesquisa, cada grupo é orientado por investigadores do HTC.

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